Dom Casmurro

“Uma noite destas, vindo da cidade para o Engenho Novo, encontrei no trem da Central um rapaz aqui do bairro, que eu conheço de vista e de chapéu.”

Dom Casmurro. Este foi o apelido que um encontro fortuito rendeu para Bento Santiago. Segundo ele, chamaram-no assim por ser um homem de poucas palavras. Mas isso não é bem o que a história contada por ele demonstra… Seria uma contradição? Afinal, o que é casmurro?

“Não consultes dicionários. Casmurro não está aqui no sentido que eles lhes dão, mas no que lhe pôs o vulgo de homem calado e metido consigo. Dom veio por ironia, para atribuir-me fumos de fidalgo.”

O dicionário revela: casmurro é uma pessoa ensimesmada, mas também teimosa. Logo, escrever sobre Dom Casmurro é intimidador. A começar pela ficção e sua apresentação, passando pelo peso da própria obra e pelos inúmeros estudos que o consagram como uma das construções literárias de maior reconhecimento da literatura brasileira. No entanto, decidi fazer parte de um imenso grupo de leitores que escreve sobre ela. Sem maiores pretensões, o intuito é comentar minha experiência de leitura e fazer uma defesa. Adivinhem de quem?

Infelizmente, não me recordo de haver lido Machado de Assis na escola, mas gostaria de tê-lo feito. Obviamente que estudei o autor em aulas de literatura, porém, não tenho como fazer comparações. Explico isso porque acredito fortemente que a experiência de Dom Casmurro não se encerra em uma única leitura. Partindo desse principio, após um primeiro contato, inicia-se uma nova conexão com a literatura que começa quando surge a pergunta. Capitu traiu Bentinho? Para dar minha opinião sobre a maior incógnita da literatura brasileira, temos que alinhar expectativas e me atrevo (mais uma vez) a fazer um breve resumo.

Dom Casmurro é a história de um homem atormentado que resolve narrar sua vida e, para tal, volta no tempo. Sua narração pode ser dividida em duas partes. Na primeira, sabemos que Bentinho nasceu no Rio de Janeiro, mais precisamente no Engenho Novo, em uma família de posses. Sua mãe era muito religiosa e desejava ter filhos. Depois de um aborto espontâneo, ela promete o primeiro filho para o seminário. O jovem cresce e se apaixona pela vizinha que cresceu com ele, Maria Capitolina. Juntos, eles planejam uma saída para driblar o destino. Para arrematar, como D. Glória é viúva, sua decisão é corroborada pelo agregado da família, José Dias. Já no internato, Bentinho conhece Escobar, seu melhor amigo. 

“O meu fim evidente era atar as duas pontas da vida, e restaurar na velhice a adolescência.”

Na segunda parte, Bentinho se torna advogado, casa com Capitu e eles têm um filho. O resumo leva a crer que este poderia ser mais um romance da “chamada” fase romântica do autor. Mas é justamente aqui que se intensificam os conflitos causados pelo ciúme doentio do narrador trazendo à tona a gama de características do gênero literário que se convenciona “chamar” Realismo e que os estudiosos assinalam como a fase em que a literatura brasileira se abre para uma transição. Da mesma forma, o Brasil também passava por um momento crucial da sua história.

Quando a Livraria Garnier publicou a primeira edição de Dom Casmurro em 1899, o país tinha acabado de libertar os escravos e de proclamar sua república. A produção de café começava a apresentar sinais de crise e a dívida externa aumentava. Se estabelecia então a base de uma articulação para promover a alternância de poder entre as oligarquias que comandavam o negócio. Em paralelo, no Rio de Janeiro, Machado de Assis fundava a Academia Brasileira de Letras. Ou seja, apesar de sua origem humilde e mestiça, o escritor percorreu uma trajetória que o reconheceu ainda em vida e estava inserido em um seleto clube de intelectuais. Enquanto tudo isso acontecia, escrevia Dom Casmurro.

Machado deAssis (1904) – arquivo nacional

A narrativa de Bento Santiago não é uma simples história, mas uma tese em defesa própria. Não à toa o personagem é advogado. A elaboração da argumentação, através da construção dos personagens e do relato dos fatos, tenta justificar seu comportamento e o adultério de Capitu. Por essa razão, cada leitor ou leitora faz parte do júri popular que se forma. Só tem um problema. Apenas ele dá sua versão. Só conhecemos a sua perspectiva. E, não tendo outra versão, cada um de nós fará, literalmente, uma leitura dos acontecimentos.

“Como vês, Capitu, aos catorze anos, tinha já ideias atrevidas, muito menos que outras que lhe vieram depois; mas eram só atrevidas em si, na prática faziam-se hábeis, sinuosas, surdas, e alcançavam o fim proposto, não de salto, mas aos saltinhos.”

Ao contrário do narrador, creio que Machado não impõe uma verdade, mas trabalha com a provocação. Sua grande jogada é simplesmente oferecer nuances, sugestões, detalhes… E o que vai decidir este jogo, definitivamente, é a perspectiva de quem lê a obra.

Ao fazer parte deste júri, minha primeira sensação é que a leitura está enviesada. Sabemos que a sociedade é patriarcal, que qualquer comportamento minimamente fora do padrão será usado contra a mulher. Sabemos que o espaço da mulher é restrito, que ter opiniões, ser atraente é mal visto. Sabemos também que a mulher deve ser religiosa, submissa, “recatada e do lar”. Sabemos ainda que ela pode ser considerada provocativa e culpada pelo simples fato de ser mulher. E como sabemos tantas coisas? Porque é assim até hoje.

“Capitu, apesar daqueles olhos que o diabo lhe deu… Você já reparou nos olhos dela? São assim de cigana oblíqua e dissimulada. Pois, apesar deles, poderia passa, se não fosse a vaidade e a adulação.”

Sendo assim, qualquer um que se deixe levar por este casmurro poderá estar incorrendo em dois erros. O primeiro, por se tratar da versão única de uma pessoa obcecada. O segundo, por confiar em um homem conservador julgando uma mulher.

A despeito do que o próprio Bentinho descreve sobre a personalidade de Capitu, revela-se ainda mais sobre ele mesmo. E assim, tendo a reforçar o coro de que não houve traição (e se houve, merece Capitu um julgamento social sobre sua vida?). Não quero defendê-la somente porque sou mulher, mas pelo fato de que ela não teve direito à defesa e também porque a exposição de Bentinho beira à um transtorno de sua personalidade. Além do mais, o principal: não há provas. Então, não há culpado. Ao final, cabe ressaltar que este julgamento hipotético não existiria nos tribunais, afinal, adultério não é crime. No entanto, ele aconteceria socialmente.

“Capitu era Capitu, isto é, uma criatura mui particular, mais mulher do que eu era homem.”

De todas as maneiras, ainda cabe outra questão. A grande genialidade machadiana se resumiria em levantar essa poeira e deixá-la baixar? Acho que não. Entendo que sua intenção poderia ser provocar enquanto a sociedade alimente a possessão e a preocupação com as aparências e, principalmente, a culpabilização da mulher. Sendo assim, ainda temos que refletir sobre obras como Dom Casmurro.

E vale lembrar que grandes clássicos da história da literatura contam histórias de adultérios sob a ótica masculina. O próprio Machado se inspirou em Otelo (1603) do inglês Shakespeare. O francês Gustave Flaubert escreveu Madame Bovary (1857) e o russo Tolstói, Anna Kariênina (1877). Logo, temos mais uma importante questão: versões masculinas sobre a posição da mulher na relação afetiva e social. O ponto não retira a importância destas obras literárias, porém, nos alerta para a necessidade de ler autoras mulheres e alçar suas obras aos postos de literatura universal e não puramente “feminina”.

Neste sentido, vou deixar três dicas preciosas para complementar sua leitura. A primeira é a resenha do livro da espanhola de Rosa Montero,  Historias de Mujeres (2008).

A segunda é a leitura imperdível de A audácia dessa mulher da escritora Ana Maria Machado. Publicado em 1999, a narrativa conta a história da jornalista Bia, uma mulher com mentalidade emancipadora em seu tempo que é o final do século XX. Ao produzir uma série televisiva, ela descobre um antigo livro de receitas que teria pertencido a uma jovem chamada Lina e que, além da culinária, registra comentários bem pessoais entre uma receita e outra. Quem seria Lina? O que Lina revela sobre sua vida? Acho que é possível deduzir a ideia de Machado com esta obra. Em 2001, ela ganha, veja que ironia, o Prêmio Machado de Assis pelo conjunto de sua obra e, em 2003, é eleita para a cadeira no 1 da Academia Brasileira de Letras.

A terceira é a premiada minissérie Capitu (2008), produzida pela Rede Globo, escrita por Euclydes Marinho com roteiro final e direção de Luiz Fernando Carvalho. Embora tenha sido feita para a televisão, seu estilo remete ao teatro, uma verdadeira pérola de produção, com interpretação e fotografia impecáveis, tendo sido indicada e reconhecida com vários prêmios.

Por fim, resta justificar o clássico. Toda vez que leio uma obra consagrada, consulto as catorze propostas de definição em Por que ler os clássicos (Italo Calvino, 2004). Dom Casmurro se adequa a quase todas elas, mas destaco uma: 

“Um clássico é um livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer.”

Sobre as edições

Como Dom Casmurro está em domínio público, existem muitas edições disponíveis. Mesmo assim, é importante escolher uma com boa diagramação considerando que são quase quatrocentas páginas. O diferencial fica por conta de elementos como apresentação, notas, prefácio ou posfácio.

Minha leitura foi feita através da versão digital em e-book da Companhia das Letras, uma coleção padronizada de clássicos com introdução bem esclarecedora de Luís Augusto Fischer.

Acabei decidindo comprar edições físicas também e me deparei com duas gratas surpresas.

A primeira da Editora Ateliê, um projeto gráfico simples e funcional com detalhe da reprodução da capa original na parte interna. As ilustrações de Hélio Cabral também são interessantes pela subjetividade de suas representações. O destaque vai para a apresentação impecável de Paulo Franchetti que faz referência ao livro O Otelo brasileiro de Machado de Assis(2002) de Helen Caldwell, com o estudo de comparação entre a obra machadiana e Otelo. A autora foi quem preconizou um ensaio de defesa de Capitu.

A segunda edição é um projeto diferenciado da Editora Carambaia com tiragem única de mil cópias (a minha é a 624). A capa é dura e vem protegida com uma jacket. O formato foi elaborado para fazer referência à primeira edição. A tipografia é especial, feita com objetivo de modernizar a visualização da fonte. As ilustrações foram feitas por Carlos Issa e propõe intervenções em imagens do Rio sugestionando o ciúme como uma mancha a impedir a visão. Um enobrecimento adicional ao projeto é a ilustração feita no corte do miolo em que se pode perceber a formação de imagens do Rio de Janeiro ao folheá-lo.

São edições de colecionador. Para o projeto de releitura de Dom Casmurro.

4 comentários em “Dom Casmurro

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  1. Recomendamos a leitura de uma das grandes autoras da literatura universal, que todavia foi esquecida por machismo da crítica literária posterior, pois em sua época todos a valorizavam e era considerada por seus pares e colegas escritores um grande gênio da humanidade: a romancista francesa George Sand. Sabemos que o cânone romântico ensinado nas escolas não é igualitário com as mulheres, mas o romantismo de George Sand é diferente. Em suas obras, como Indiana, Valentine e Lélia, a mulher é sujeito de sua vida, dos seus sentimentos e do seu desejo, não é passiva e, sim, busca a liberdade. Ela não se vê encaixada na sociedade patriarcal e deseja romper com seus grilhões. Como por aqui somos fãs de George Sand, ficamos sempre um pouco frustradas quando as pessoas, por exemplo, acusam o romantismo de ser machista. Perguntamo-nos: de que romantismo essas pessoas estão falando? Pois estão esquecidas de George Sand, que foi lida em todo mundo, desde José de Alencar, Flaubert, Victor Hugo, Álvares de Azevedo, Liev Tolstói, até Fiódor Dostoiévski, todos esses autores liam e admiravam George Sand. Desejamos boa leitura a todas e que os críticos literários parem de esconder o que as mulheres escreveram, publicaram, inclusive o sucesso que tiveram em sua época.
    Atenciosamente,
    A equipe da Escola Feminista.

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    1. Muito obrigada pelo comentário e recomendação! Vou buscar as obras mencionadas. Quero muito fazer uma comparação entre Anna Kariênina, Dom Casmurro e Madame Bovary. Agora terei que incluir GS. Já li algo sobre a biografia de que seria uma mulher com pseudônimo masculino para ser publicada. Confere?

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      1. O nome de nascida dela era Amandine Aurore Lucile Dupin, nasceu em 1º de julho de 1804, faleceu em 1876. Assumiu o nome de George Sand para publicar e não ser discriminada e ficou conhecida por esse nome até na vida pessoal. (Chamavam-na “Madame George Sand” quando posteriormente descobriram que ela era mulher. ) Muito amiga de Flaubert.

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      2. Prezada Bárbara Mussili:
        A secretária de marketing da Escola Feminista falou-lhe ontem e me informou que você está interessada na obra da George Sand. Sou uma das professoras, responsável por alguns cursos aqui da nossa escola on-line e aproveito a ocasião para complementar as informações que lhe foram passadas ontem. George Sand teve muitas amizades, algumas delas profundas, como foi o caso de Flaubert, mas ela teve igualmente muitos casos amorosos e o mais famoso deles foi o longo relacionamento e parceria com o grande compositor polonês e gênio da música Frédéric Chopin.
        Essa autora viveu uma vida completamente livre e fora dos padrões, criou novas formas de expressão literária (personagens femininas questionadoras e outsiders e também o chamado romance campestre). Quando sua estreia de carreira solo, “Indiana”, saiu a lume em 1831, os salões e o público ficaram a um só tempo entusiasmados e perplexos com as temáticas nunca antes levadas a público. Lélia, de 1833, foi outro marco do romantismo francês, sendo comparado a uma versão feminina de “Werther”, os questionamentos do protagonista homem de Goethe aplicados em outra perspectiva: a das mulheres. Recomendamos especialmente a edição original de 1833 mesmo, pois a 2ª edição, posterior, sofreu cortes.
        Nosso imperador D. Pedro II tentou visitar George Sand, pois a admirava e queria conhecê-la, mas infelizmente ela não estava em casa na ocasião. Todo mundo queria conhecê-la!
        Aproveito para convidá-la para nosso curso, totalmente gratuito, de Iniciação ao Feminismo. Boa parte do módulo II, sobre a vida das mulheres no século XIX, discutiu a grande importância de George Sand. Mais tarde, teremos um curso de aprofundamento em Estudos Sandianos.
        Com votos ainda de um bom mês da Mulher,
        Larissa Trindade,
        Professora e co-fundadora da Escola Feminista.

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