Longa pétala do mar

“El soldadito era de la Quinta del Biberón, la leva de niños reclutados cuando ya no quedaban hombres jóvenes ni viejos para la guerra.”

Entre a data do meu último post aqui no blog, quando escrevi sobre a leitura de Um teto todo seu (Virginia Woolf), e a data de hoje se vão 226 dias. O Refúgio Ameno nasceu no Chile, fruto de uma experiência sabática. Durante esse período que interrompi a escritura, muita coisa aconteceu. Voltei ao Brasil para seguir um novo caminho: cursar Letras. E essa decisão também surgiu dos livros que se abriram pra mim e que foram resenhados no blog. Tudo conectado. Agora o Refúgio também ficou no passado. Escrevo por mim.

Com essa repentina mudança, adaptação à demanda do curso, novos projetos que incluíram um guia de viagem à Santiago em parceria com o Blog Nós no Chile, o tempo ficou escasso. Porém, nestas semanas de trégua, termino a leitura de um livro especial. Mais uma bonita conexão.

Isabel Allende – foto de divulgação da sua página oficial

Isabel Allende acabou de publicar o seu mais recente livro, Longa pétala do mar na versão em português. Li a versão em espanhol e por isso as citações neste idioma. Este é o 23º livro de sua extensa obra que alcança números estratosféricos no mercado editorial. São setenta milhões de exemplares vendidos em todo o mundo, livros traduzidos para cerca de quarenta idiomas e aproximadamente sessenta prêmios que reconhecem o seu trabalho, como o Prêmio Nacional de Literatura em 2010 no Chile, o Prêmio Hans Christian Andersen em 2012 na Dinamarca, além de inúmeros outros reconhecimentos.

Edição em português

Mas, cada vez que leio um livro de Allende, principalmente destes que ela resgata o Chile e a história, constato que realmente vivi no mesmo país inventado por ela, parafraseando o título de um dos seus livros biográficos que me apresentou ao país. Esse lugar descrito tão poeticamente por Pablo Neruda como uma “extensa pétala do mar, de vinho e neve”, no poema “Cuándo de Chile”, escrito em 1954, é parte da antologia Las uvas y el viento.

E é justamente o poeta que inspira a autora a (re)contar o passado do Chile, através da sua relação com a Espanha em um contexto diferente da época da Conquista, trazendo à tona um tema absolutamente atual: a imigração.

O ano é 1938 na Espanha. Após resistirem à Guerra Civil Espanhola, nada resta ao paramédico Víctor Dalmau e à aprendiz de pianista Roser Bruguera que deixar tudo para trás e pedir refúgio.

Na sua infância, Allende já tinha ouvido falar na história do Winnipeg, um navio que levou dois mil espanhóis refugiados sob a coordenação do poeta, então diplomata, Pablo Neruda, à contragosto da parte conservadora da sociedade chilena. Opiniões estas não muito diferentes das que escutamos atualmente sobre as imigrações forçadas que sucedem no mundo inteiro.

Posteriormente, já adulta e ela mesma uma exilada, a escritora conhece Víctor Pey na Venezuela, refugiado espanhol que esteve a bordo do Winnipeg. Foi através dos relatos deste grande amigo que este livro nasceu.

O que Allende desenvolve a partir daí é uma história que envolve famílias de lados ideológicos opostos, classes sociais opostas, culturas diferentes, pensamentos conservadores, progressistas e as decorrentes opressões de todo este balaio. Alguma sensação de déjà vu?

A autora estrutura a novela em quatro partes. A primeira, “Guerra e exôdo”, apresenta os anos de 1938 e 1939 e seus principais núcleos: a família Dalmau e a Del Solar. A família Dalmau, depois de resistir como pôde à Guerra Civil Espanhola, foge de Barcelona, faz a travessia pelos Pirineus para chegar na França onde as fronteiras estavam fechadas e, finalmente, cruza o Atlântico para chegar em Valparaíso. A família Del Solar cruza o mesmo Atlântico em sentido contrário e com objetivos muitos distintos. São membros da alta sociedade chilena que viajam por prazer e negócios.

A segunda parte, “Exílio, amores e desencontros”, vai de 1939 até 1942 e, enquanto a Segunda Guerra Mundial assola a Europa, os Dalmau tentam reconstruir suas vidas inseridos nesta sociedade que Allende gosta de expor em minúcias, principalmente nos aspectos de sua desigualdade social e também do patriarcalismo enraizado.

Na terceira parte, “Retorno e raízes”, de 1940 até 1994, a quase profecia que a escritora ressalta na própria sinopse do livro começa a se realizar: “Si uno vive lo suficiente, todos los círculos se cierran.” Da Segunda Guerra, passa-se à Guerra Fria e desta à polarização ideológica que a representou e que a nossa América Latina foi, digamos, objeto de disputa. Assim vieram ditaduras militares e nos tornamos quintal da opressão em nome deste. 

Um pequeno e ingênuo spoiler (que não compromete as surpresas do romance), é que Víctor, já um médico conceituado, foi detido, levado a um campo de concentração e torturado. Ele era companheiro de jogo de xadrez do presidente deposto Salvador Allende, cujo corpo saiu sem vida do Palácio de La Moneda bombardeado em 11 de setembro de 1973. Assim, um novo exílio, desta vez para a Venezuela e, coincidentemente, a mesma Venezuela que abrigou Isabel Allende em seus tempos de exílio.

Os ciclos vão se fechando, raízes vão sendo fortalecidas, desfechos inesperados acontecem.

Desde o começo da narrativa, Allende intercala a caracterização dos personagens, suas tramas e os fatos históricos. Costuma dizer que seu processo de criação é natural, que não necessariamente a história está pronta em sua mente e que o trabalho não prescinde da pesquisa histórica. Afinal, em Longa pétala do mar, além dos fatos, é inevitável trazer à tona personagens reais que ajudam o leitor a situar-se. Não só os chilenos Pablo Neruda, Salvador Allende, Pedro Aguirre Cerda, Augusto Pinochet mas também o espanhol Francisco Franco, o alemão Adolf Hitler, o italiano Benito Mussolini, o russo Iósif Stalin, dentre outros, estão lá.

É importante mencionar que o grande mérito deste novo livro é ver Isabel Allende fazendo o que eu, particularmente, acho que ela faz de melhor, resgatar e recontar histórias, basear nelas a ficção, criar personagens e situações referenciais aos seus outros livros. Porque todos lamentamos quando somos transportados para uma história e depois ela acaba. Mas Isabel, de alguma forma, traz de volta Trueba, Clara, Blanca, Pedro, Alva, Esteban de A casa do Espíritos. Traz de volta a luta por justiça e valores, direitos humanos. Reacende a memória de fatos que não deveriam ser esquecidos ou voltar a acontecer. Discute a opressão, o domínio, seja ele político, patriarcal ou de classe social. Podemos fazer alguns paralelos de ambas as novelas citando o casamento por conveniência, a gravidez não desejada e escondida, o poder da igreja, a subalternidade dos personagens de origem indígena, o silenciamento da mulher.

E deixei por último, minha impressão mais tocante. Temos em Longa pétala do mar a relação da poesia com a vida, temas como amizade, amor e generosidade. Mas temos também um assunto atual que precisa ser ainda mais discutido que é a questão dos refugiados. Naquela situação, guerra civis e perseguições políticas obrigaram milhares de pessoas a migrar. Hoje também temos essas mesmas razões, somadas à miséria. Em breve, teremos até mesmo refugiados por questões ambientais. São questões humanitárias. Existem sim problemas decorrentes disso, mas não é possível que as nações ditas nações ainda se comportem como aldeias. Que a literatura nos traga mais essa reflexão.

Rio de Janeiro, 2 de agosto de 2019

2 comentários em “Longa pétala do mar

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