– Acorde, Panta – diz Pochita. – Já são oito horas. Panta, Pantita.
Pantaleão Pantoja é militar. Um profissional sério e dedicado ao ofício, o qual foi moldado para exercer. Ao receber uma missão confidencial e extremamente delicada, ele não pensa duas vezes. Após a apreensão inicial, considerando possíveis conflitos familiares, o dever fala mais alto e Pantaleão começa a implementar o projeto: o SVGPFA – Serviço de Visitadoras para Guarnições, Postos de Fronteiras e Afins. Sigla no melhor estilo corporativista e nome sofisticado para a prestação do serviço mais antigo do mundo, a prostituição, ao Exército Peruano.
Mario Vargas Llosa é o autor de Pantaleão e as Visitadoras (1973). Um escritor, jornalista e político, nascido em Arequipa, ao sul do Peru, mas que também possui nacionalidade espanhola. É um dos grandes nomes da literatura na América e um dos representantes do movimento literário batizado como “Boom Latino-Americano”, ocorrido nas décadas de 60 e 70 quando vários escritores latinos tiveram grande projeção na Europa. Vargas Llosa, último representante desta geração, faleceu em 13 de abril de 2025 aos 89 anos.

Ideologias à parte, o escritor recebeu inúmeros reconhecimentos como contribuição para a cultura universal, dentre eles os prêmios Príncipe de Astúrias de Letras (1986), Cervantes (1994) e Nobel de Literatura (2010). É membro da Academia Peruana de Letras desde 1977 e da Real Academia Espanhola desde 1994.
Sua obra é vasta e não inclui somente romances mas também contos, ensaios, memórias, peças de teatro, reportagens etc. Alguns de seus romances mais conhecidos são A Cidade e os Cães (1963), A casa Verde (1966), Conversa na catedral (1969), Tia Julia e o Escrevedor (1977), A Guerra do Fim do Mundo (1981), A festa do bode (2000), Travessuras da Menina Má (2006), Cinco Esquinas (2016), Tempos ásperos (2019) e o mais recente Dedico a você meu silêncio (2023).
Pantaleão e as Visitadoras foi escrita entre 1973 e 1974 quando já vivia em Barcelona. Em um prólogo de uma edição mais recente (1999), o próprio autor nos conta ter “…se baseado em um fato real, um serviço de visitadoras organizado pelo Exército Peruano para desafogar os institutos sexuais de suas guarnições, que conheceu em duas viagens à Amazônia, em 1958 e 1962, exagerado e distorcido até se converter em uma truculenta farsa…”.

Conta ainda Vargas Llosa que, na época, influenciado pelas ideias do filósofo e escritor francês Jean Paul-Sartre, tentou imprimir seriedade à história mas talvez esse fosse um dos casos em que a ficção impõe sua força e ele se viu obrigado a suavizar a hipocrisia para escrever. Melhor assim.
O autor dividiu o romance em dez partes, ao mesmo tempo em que preparava sua versão cinematográfica que seria dirigida por José María Gutiérrez mas que, ao fim, foi em parceria entre este e o próprio escritor. Acredito que por essa razão a prosa tenha sido desenvolvida com diálogos e uma clara característica de roteirização, sendo que a ambientação destes muda sem aviso-prévio, lembrando vagamente a técnica de fluxo de consciência. Nada que, a partir da observação, comprometa o entendimento.
Outra peculiaridade é a utilização de cartas e de informes como mecanismos de narrativa. Pode parecer estranho de início, entretanto, esses elementos tornam a ficção mais real.
Pantaleão e as Visitadoras é isso: a hipocrisia disfarçada de comédia. Ou a arte da literatura a serviço da nossa necessidade de acessar as ironias da sociedade em que vivemos. A história se passa na Amazônia Peruana na metade da década de 50. Pantaleão vive com a esposa Francisca (Pochita) e a mãe, a Sra. Leonor, em Lima, até ser promovido a capitão do exército e ser transferido para Iquitos, na selva peruana, à margem do Rio Amazonas.
A história que se quer contar tem várias nuances. Uma delas é a conduta do capitão acima do homem. Pantaleão é informado quanto aos casos de estupro cometidos pelos soldados e que revoltam a população. É informado também da solução encontrada. Investigar? Denunciar? Punir? Simplesmente estabelecer uma rede de prostituição dentro do próprio Exército para atender a “demanda”. Obviamente, em sigilo.
– Em poucas palavras, a tropa da selva está comendo as cholas – toma fôlego, pisca, tosse o Tigre Collazos. – Há estupros a granel e os tribunais já nem conseguem julgar tanto safado. Toda a Amazônia está em alvoroço.
– Diariamente nos bombardeiam com informes e denúncias – belisca o queixo o General Victoria. – Chegam as comissões de protesto dos povoados mais perdidos.
Pantoja se desconforta com a situação, porém, segue adiante. Esconde da família, passa a atuar na clandestinidade porque não poderia transparecer que era militar. Faz um trabalho de campo, colhe estatísticas, estuda formas de implementação, recruta as prestadoras de serviço e estabelece seu sistema de remuneração, planeja a logística, a alocação de despesas, a dedução nos soldos, sistematiza e automatiza a atividade sem, no entanto, declará-la formalmente. Executa a tarefa na mais absoluta fidelidade à corporação e acima de questionamentos morais ou éticos. Essa atitude resvalará em consequências no decorrer da história.
Outra perspectiva seria a das prostitutas. O autor mostra tanto a situação miserável das mulheres assim como sua marginalização. Tanto as da casa de prostituição, quanto as “lavadeiras” que se prostituem sem intermediários, não possuem possibilidades de mudar as condições precárias em que vivem ou fazer escolhas. Ao “servir” ao Exército, passam a ter o que se poderia chamar de regulamentação das suas condições de trabalho, na medida do que atende ao corporativismo militar. O que foge ao controle, como o envolvimento efetivo, automaticamente elimina a visitadora de sua função.
Em um terceiro ponto de vista, há a sociedade como um todo. É interessante perceber os diversos grupos que o autor insere no contexto. A família, que deseja preservar sua posição social e até mesmo seus privilégios ao não entender por que o oficial deve se comportar como civil para esconder sua missão; os religiosos, que se organizam em seitas fundamentalistas (Irmandade da Arca) para concorrer com a fé católica; a rádio (A Voz do Sinchi), que denuncia de acordo com seus interesses.
Em suma, a atividade é tão bem planejada por Panta que cresce vertiginosamente. Cresce tanto que reflete no próprio comportamento e na vida do capitão, cria um mercado, desperta interesse e ódio.
– Dez mil semanais? – franze a testa o general Scavino. – É um exagero delirante, Pantoja.
– Não, general – se colorem as bochechas do capitão Pantoja. – Uma estatística científica. Veja estes organogramas. É um cálculo cuidadoso e, mais que isso, conservador. Aqui, olhe: dez mil prestações semanais correspondem à “necessidade psicológico-biológica primária”. Se tentássemos cobrir a “plenitude viril” de cabos e soldados, o número seria de 53.200 prestações semanais.
Há, nessa obra, um contexto que ainda hoje nos acompanha que é o fato de que a sociedade atual ainda considere natural determinadas condutas para o homem e as condene para a mulher. O crime de estupro, por exemplo, ser aceito, a partir da visão de que o homem teria instintos sexuais incontroláveis. Admite-se a prostituição desde que como uma atividade invisível, o que é uma falácia, porque o fingimento é a tônica que discrimina somente as mulheres.
Seria esperar muito que na década de 50 ou 70 fosse diferente do que foi espelhado na ficção se, ainda hoje, pleno século XXI, vivenciamos comportamentos que continuam a alimentar a cultura do estupro ou a discriminação social e o preconceito, através da desigualdade de gênero, da culpabilização da vítima, da marginalização de minorias ou das parcelas da população mais atingidas historicamente pela ausência de políticas sociais e econômicas.
– Desculpe, mas tenho que ir. Minha mulher está no ginecologista e quero saber o que ele disse. Só faltam dois meses para o cadetinho nascer.
– E se em vez de cadetinho nascer uma visitadorazinha, senhor Pantoja? – começa a rir, cala, se assusta Chuchupe.
Termino a resenha com o prefácio do livro.
“Há pessoas que não tiveram outra missão entre os homens, a não ser servirem de intermediários. Nós os atravessamos como pontes e, então, vamos mais longe.” (tradução livre). A obra de Gustave Flaubert, autor do polêmico Madame Bovary, teria influenciado Vargas Llosa. A citação nos deixa a reflexão sobre essas pessoas “pontes” que nos levam. Os intermediários (pessoas) ou a convivência (pontes) sempre nos modifica. Individual ou coletivamente. Talvez demore um pouco passar pela ponte mas a travessia é inevitável. Talvez Flaubert tenha sido uma ponte para Vargas Llosa. Talvez Vargas Llosa seja uma ponte para quem o lê.
Bárbara Mussili
Santiago do Chile, 24 de agosto de 2015 (atualização 16/04/25)
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