Brasil: uma biografia

“Difícil imaginar o impacto e o significado da “descoberta de um Novo Mundo.”

Ao longo de toda a vida escolar nos deparamos com a história do Brasil e não nos damos conta que, hoje mesmo, ela continua em evolução. Todos os dias nossas vidas são, de alguma forma, afetadas por mudanças de toda ordem. E um dia, esse conjunto de eventos serão estudados e incorporados à continuidade de uma nova aula ou de um novo livro de história. Muitos destes capítulos, inimagináveis, eu diria.

Mas participar da história hoje é um pouco difícil devido ao distanciamento necessário para entender certos acontecimentos. Às vezes, é preciso aprofundar ainda mais no passado para entender o presente. E isso pode demandar que este presente já seja futuro.  Brasil: uma biografia, lançado em 2015 pela Companhia das Letras, ajuda a entender o Brasil atual.

O título já é sugestivo. Não se trata de apresentar ao leitor uma proposta tradicional, da história organizada cronologicamente e conceituada como em um livro didático ou em uma enciclopédia. Segundo o Dicionário Houaiss, uma biografia é uma “narração oral, escrita ou visual dos fatos particulares das várias fases da vida de uma pessoa ou personalidade”. Parece que as autoras quiseram dar vida a este ente chamado Brasil. Quiseram dar-lhe uma personalidade, ainda que saibamos tratar-se de um coletivo, levando o leitor a deixar de lado sua própria individualidade para pensar em um todo.

As autoras Lilia Moritz Schwarcz e Heloisa Murgel Starling são historiadoras, escritoras e professoras. Além disso, Lilia é antropóloga e Heloisa, cientista política. Essa foi a liga que propiciou que estivessem juntas neste projeto idealizado pela Companhia das Letras e pela Penguin UK. Foram dois anos de trabalho de uma equipe de diversos profissionais que colaboraram para fazer a revisão técnica e a pesquisa iconográfica, reunir as incontáveis referências bibliográficas e as inúmeras notas, preparar e revisar todo o texto e elaborar o projeto gráfico dando a dimensão de um trabalho minuciosamente feito a muitas mãos.

São dezoito capítulos em 792 páginas, desde a chegada dos portugueses até praticamente 2016, contados como uma narrativa fluida e permeada de detalhes que dão ao leitor uma sensação de ver a história por uma perspectiva diferente. Obviamente que as autoras não tiveram a intenção de condensar 515 anos de história, mas nem por isso esta é uma obra superficial. Ao contrário, nos faz refletir profundamente sobre as consequências do passado no presente. 

Algumas dessas consequências são mais marcantes e acredito que esta intensidade possa variar para cada leitor dependendo justamente da sua perspectiva. E isso, por si só, já diz muito a respeito de como nossa sociedade foi construída.

Até bem pouco tempo, aprendíamos que o Brasil tinha sido “descoberto” como se ignorássemos os fatos de que o Tratado de Tordesilhas tenha sido assinado antes mesmo de Cabral aportar por aqui e que o território já era ocupado pelos povos originários que cruzaram o estreito de Bhering muito tempo antes. E esses povos, chamados de maneira generalizada por indígenas, foram dizimados. Até hoje, os que se perpetuaram, disputam território e lutam por seu espaço, representatividade e cultura.

Aprendemos também que a escravidão foi abolida em 1888, mas nos distanciamos do que foi a penúria, a miséria e a violência em estabelecer um sistema econômico baseado na opressão de seres humanos que desumanizados hediondamente. E esse distanciamento, até hoje, contribui para a marginalização dos negros e, embora sejamos um povo miscigenado, o racismo persiste estruturalmente na sociedade.

Observamos nossa história ser povoada pelos colonizadores, governadores gerais, reis e imperadores, oligarcas, militares, presidentes, em um modelo patriarcal que centralizava o poder nas mãos dos homens. Até hoje, a mulher luta para reivindicar representatividade e direitos igualitários, desconstruindo todo um arcabouço de concepções unicamente elaboradas pela perspectiva masculina.

Ou seja, Brasil: uma biografia, não vem somente trazer uma sequência de fatos históricos relacionados com a política, ainda que desenhe uma linha a ser percorrida desde antes de 1500, passando pelo Brasil pré-colonial, colonial, reino unido, império e suas repúblicas com direito a golpes de Estado e ditaduras. Não vem somente cruzar essa linha com os ciclos econômicos do pau-brasil, da cana-de-açúcar, da mineração, do algodão, da borracha, do café e da soja para chegar nas matérias-primas que formam sua atual matriz econômica.

Sua abordagem vai além quando mostra a formação de uma identidade, através da formação do povo brasileiro, suas manifestações, revoltas, insurreições, conjurações, inconfidências, ou seja, movimentos de toda natureza para demonstrar uma vontade, uma vocação para se fazer valer algo muito precioso que ainda estava por vir. E podemos citar vários exemplos que o livro traz, como os Quilombos, a Inconfidência Mineira, a Revolta da Cachaça, a Revolução Farroupilha, a Guerra de Canudos, a Revolta da Vacina, a Revolta da Chibata, a Passeata dos Cem Mil, a Campanha das Diretas Já ou as Manifestações de Junho de 2013. Escolhi algumas das que mais me chamaram atenção porque são muitas.

Brasil: uma biografia é uma leitura didática densa. Eu diria que muitas vezes, é doída. Mas, por conta dessa personalidade que se vai formando, tão dúbia e contraditória, e, ao mesmo tempo, tão única, a leitura flui. E o que muito contribui para isso são as inúmeras referências culturais e até mesmo curiosidades que conquistam qualquer leitor. Saber, por exemplo, que Monteiro Lobato escreveu a história O poço do Visconde em que o Visconde de Sabugosa encontrava petróleo no sítio da Dona Benta para denunciar uma ideia de dependência econômica do Brasil, é sutil. Tem também a menção à idealização romântica da tela de Victor Meirelles, A primeira missa no Brasil (1860), que,  como obra encomendada, nada tem a ver com a possível realidade da ocasião.

As autoras também ilustram o trecho que aborda a polarização entre os conservadores e os liberais na época do fim do Império, lembrando do romance genial de Machado de Assis, Esaú e Jacó, em que o conflito entre dois irmãos gêmeos simboliza essa disputa. Ou mesmo o fato de que Tancredo Neves escondeu sua doença para impedir sua candidatura na delicada fase de transição em 1985. Além da iconografia primorosa sa obra.

Além das referências culturais, são inúmeras as menções à obras literárias. Ao final, especificamente no capítulo da cronologia, essas obras são citadas nos anos em que foram publicadas. Um banquete para quem, como eu, deseja aprender mais sobre o “biografado” através da Literatura.  Através desta oportunidade, escolhi a leitura de Esaú e Jacó, por exemplo.

Mas, como tudo que é bom nessa vida, Brasil: uma biografia deixa um gostinho de quero mais. Quando foi chegando ao final, justo aquela que se refere ao período que já vivemos e não ao que aprendemos nos livros, tive a sensação de que via apenas um trailer de filme. O período de redemocratização é mais focado até o governo de Fernando Henrique Cardoso. A partir daí, muito brevemente se fala sobre Lula e Dilma. Esperava, principalmente, uma análise mais aprofundada e a visão de historiadoras das autoras sobre os impactos das políticas sociais na vida do povo brasileiro e da luta contra a desigualdade social, como elas chegam a mencionar de passagem.

De uma certa forma, a conclusão, História não é conta de somar, atende relativamente a estes anseios quando volta aos pontos sobre injustiça social, democracia jovem e a república que ainda não faz jus ao nome com a corrupção trazida à tona, ampliando um pouco o final repentino. Principalmente quando explica que o livro estava indo para a gráfica quando começaram a pipocar as manifestações de 2015.

Porém, para os que pensam que acabou, a resposta é não. Para minha surpresa, depois de já ter me conformado, eis que surge a cereja do bolo. Exatamente no momento em que eu terminava a biografia, a Companhia das Letras publica e disponibiliza gratuitamente um Pós-escrito das autoras complementando o período 2016-2017. Mas a conta ainda não fechou, ao menos por enquanto.  Essa é uma biografia sem fim.

“Historiadores têm por hábito serem cautelosos; e, resignados, costumam avisar que uma história só é previsível depois que ficou no passado.”

Mesmo com essa cautela, temos uma análise neutra dos fatos, até porque é uma análise que, até onde entendo, é concretada na historiografia que já se reuniu diante de acontecimentos tão recentes. Recomeça a montar os argumentos em 2012, analisando algo do primeiro governo de Dilma Rousseff, as manifestações iniciadas pelo Movimento Passe Livre em 2013 pelo aumento das tarifas de transporte, o início das investigações da Operação Lava Jato em 2014, a reeleição de Dilma, as manifestações de 2015 que dividiram e ainda dividem o país e, por fim, o processo de impedimento da Presidenta.

“Vai demorar algum tempo para que possamos compreender tudo o que aconteceu no Brasil entre os anos de 2015 e 2017. Fazer uso de procedimentos rotineiros, obedecer formalmente à letra das leis vigentes no país, mas usá-los em favor de objetivos contrários aos valores democráticos preservados pelas instituições, é uma manobra, que foi apresentada e aceita por parte da população sem o devido juízo crítico e sem a avaliação do custo dessa operação para a própria Democracia brasileira.”

Enfim, o algo muito precioso que mencionei um pouco antes está evidente agora e trata-se da Democracia, assim com -D maiúsculo, como instituição que é. Se a leitura de Brasil: uma biografia, além de apresentar a história de uma forma lúcida, honesta e relevante, poderia validar algo mais que seria justamente o valor da Democracia, de verdade, a serviço do bem comum. De mais nos resta esperar que o período 2017-2025 ficar no passado para incorporar um adendo a esta biografia.

“Eu vejo o futuro repetir o passado

Eu vejo um museu de grandes novidades

O tempo não para”

(Cazuza / Arnaldo Brandão) – 1988

Sugestões para complementar sua leitura:

Companhia das Letras – Brasil: uma biografia (Book trailer)

Companhia das Letras – Entendendo Brasil: uma biografia Lilia Schwarcz e Heloisa Starling conversam

Flip 2015 – Brasil: uma aula (Ago/2015)

Drauzio Varela entrevista Lilia Schwarcz (Julho/2015)

Nexo Jornal – Temas fundamentais do Brasil (Dez/2016)

Série de entrevistas com Lilia Schwarcz e Heloisa Starling

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