“Foi uma lúgubre noite de novembro que contemplei a conquista de meus pesados trabalhos.”
Tudo começou com um conto. Era um verão chuvoso em Genebra em 1818 e um grupo de amigos teve a ideia de escrever histórias de fantasmas. A jovem Mary Shelley, 19 anos, não se sentia muito inspirada, mas, ao escutar o companheiro Percy Shelley e o amigo Lord Byron conversarem sobre o princípio da vida, teve um lampejo. E escreveu o clássico que resiste há mais de duzentos anos no nosso imaginário.

São inúmeras as produções que retratam um gigante verde monstruoso como Frankenstein e, até mesmo quem nunca viu os filmes clássicos da década de 30 associa o nome a essa imagem, como é o meu caso. Então, quando decidi ler a obra, de imediato me deparei com uma surpresa. E, esperando que isso não seja um spoiler, começo esclarecendo que sim, esta é uma história sobre um criador e uma criatura, mas não, Frankenstein não é o gigante que se vê nos filmes e nos desenhos.

Esse esclarecimento é fundamental para contar minha experiência de leitura, assim como são necessárias algumas outras explicações para poder mostrar por que essa obra é tão fascinante e repercute até hoje, ainda que com algumas, digamos, licenças poéticas.
Mary Wollstonecraft Godwin nasceu em Londres em 1797, em plena Revolução Industrial, filha dos filósofos e escritores William Godwin e Mary Wollstonecraft. E aqui está a minha primeira motivação para ler o livro: a mãe de Shelley é considerada uma precursora do Movimento Feminista e escreveu A vindication of the rights of woman (1792) numa época em que era subversivo defender a igualdade de direitos entre homens e mulheres. Eu li um pouco sobre sua vida no livro da Rosa Montero, Historias de Mujeres (1995) e aprendi um pouco sobre o seu pensamento no curso Filosofia Feminista da filósofa e escritora Márcia Tiburi. Mary Wollstonecraft morreu dez dias após o nascimento da filha.

Em 1816, Mary já estava casada com Percy Shelley e também já escrevia. E aqui voltamos para a cabana. Depois de viajar muito e frequentar meios literários, foram parar em Campagne Chapuis, na Genebra, Suíça, onde inventaram essa espécie de concurso entre amigos do melhor conto de terror. No entanto, ela não se contentou em criar puramente uma história sobrenatural.
Frankenstein ou o Prometeu Moderno pode ser classificado no gênero de ficção científica gótica, porém, para além desse rótulo, o título já sugere mais que uma obra inspirada nas teorias da época sobre eletricidade e galvanismo. Mary também idealizou uma obra filosófica. Em uma analogia à tragédia grega, a autora compara o seu personagem principal com o Titã que roubou o fogo de Deus para dar aos homens.
O Prometeu de Mary Shelley é o estudante de ciências naturais, Victor Frankenstein, nascido em Nápoles, criado em Genebra, que sonhava em realizar um grande feito. Nascido em uma família de origem distinta, foi criado pelos pais Alphonse e Caroline Frankenstein em um ambiente de muito amor e proteção. Era o irmão mais velho de William e Ernst, além de Elizabeth, adotada pela família. Outro personagem importante é o seu melhor amigo Henry Clerval.
“Minha índole era às vezes violenta e minhas paixões, veementes; mas por alguma lei em meu temperamento elas não eram dirigidas a buscas infantis, e sim a um ávido desejo por aprender, mas não por aprender todas as coisas indiscriminadamente…Eram os segredos do céu e da terra que eu queria desvendar…minhas questões eram sempre dirigidas ao aspecto metafísico ou, em seu sentido maior, aos segredos físicos do mundo.”
Então, que fique claro, Frankenstein é o sobrenome da família de Victor e, para não confundir, vou tratar de me referir a ele pelo seu primeiro nome. Em um dado momento, Victor, para aprimorar sua educação, vai estudar na Universidade de Ingolstadt, no sul da Alemanha e é lá que, depois de se inspirar em personagens reais como o estudioso cabalista alemão Cornelius Agrippa, o alquimista e físico alemão Paracelso e o teólogo dominicano Alberto Magno, encontra os professores de filosofia natural e de química, sr. Krempe e sr. Waldman, e se vê ainda mais estimulado para seu grande feito: dar vida a uma criatura a partir dos seus conhecimentos da ciência.
Em sua própria casa e não em um castelo medieval como nos filmes, mas com a mesma morbidez de uma típica história de terror, o estudante monta um corpo humano com pedaços de cadáveres e tem êxito em sua operação de animá-lo. De tão horrenda e asquerosa, o próprio Victor se arrepende de imediato, porém, era tarde demais. A criatura foge e aí se desencadeia um enredo aterrorizante e um conflito de ordem moral sobre os limites da ciência e a complexidade das relações humanas.
Para muito além do fascínio da história, Mary Shelley cria uma narrativa especialmente criativa. A autora não nos oferece a história de bandeja. A estrutura da novela é composta em três partes. Sua narração começa com as cartas do capitão Robert Walton, também um sonhador de grandes feitos, que deseja desbravar o Pólo Norte. Ele escreveu para sua irmã Margaret, na Inglaterra, que encontrou um homem perdido no mar de gelo em que navegava e que ele contou uma história fantástica de perseguição a um monstro.
A partir daí, ainda na primeira parte, Walton dá voz ao próprio Victor, amargurado e vingativo, à busca de sua criatura que ele nunca chamou de Frankenstein. A verdade é que o criador não reconhece essa “paternidade”, ao contrário, sua repulsa e seu ódio à figura que ele próprio deu vida são de tal maneira que ele apenas se refere à criatura como monstro, demônio, desgraçado. Mas o leitor não se deve deixar influenciar.
Na segunda parte, a criatura conta sua versão dos fatos. E talvez você se surpreenda com o despertar desse ser rejeitado, desenvolvendo sua consciência lendo obras como Paraíso Perdido, poema épico de John Milton (1667), Vidas paralelas do filósofo grego Plutarco (Século I) e Os sofrimentos do jovem Werther, romance de Johann Wolfgang von Goethe (1774). Ao meu ver, essa construção é o ápice da história. De uma maneira genial, Shelley elabora claramente a oposição entre os dois personagens através de várias imagens, do belo e do feio, dos sentimentos nobres e dos vis, da bondade e da maldade, da paisagem deslumbrante e do cenário de tempestade, da vida e da morte.
Antes de terminar a terceira e última parte, a narração retorna para Walton, o único a testemunhar o embate psicológico entre criador e criatura. Acredito que nós, leitores, sejamos um pouco como Margaret, a irmã do capitão. É como se nós tivéssemos lendo suas cartas, incrédulos.
Além do texto original, a linda edição da Editora Zahar traz alguns elementos que fazem a diferença. A apresentação do tradutor Santiago Nazarian foi fundamental para me situar na leitura, além das notas de rodapé que satisfazem a curiosidade quanto às inúmeras referências da autora ao longo da história. Ao final, como anexo, duas preciosidades: a introdução feita por Percy Shelley à edição de 1818, lançada anonimamente já que na época um livro escrito por uma mulher não tinha credibilidade, e a introdução à edição standard de 1831, feita pela própria Mary Shelley, já reconhecida. De brinde, uma cronologia da vida e obra da autora.
Pode-se concluir que esta é uma história de terror. O sentimento de medo não se relacionou com as descrições tenebrosas, mas sim com a tragédia humana. O romance foi mais marcante no seu aspecto filosófico. Definitivamente, essa abordagem, acompanhada de várias referências, é uma motivação adicional para escolher essa leitura.
Creio que a primeira questão que virá sempre à tona ao leitor diz respeito à diversidade e a importância dada aos padrões de beleza. Não tem como não reconhecer esse problema na forma como a criatura foi julgada, antes pela sua aparência do que por seus sentimentos e suas intenções. Muito mais grave do que se possa imaginar, Shelley leva essa discussão às últimas consequências quando inclusive aborda a loucura e o suicídio. E ainda provoca claramente o leitor ao mostrar pessoas com sentimentos nobres e tão bem educadas mas incapazes de superar as barreiras do preconceito. E isso acaba muito mal.
“Seria o homem de fato ao mesmo tempo tão poderoso, virtuoso e magnífico, e ainda tão vil e baixo?“
Ainda assim, embora a reflexão principal de Frankenstein se concentre na relação dos dois personagens principais, também é possível transpor esse antagonismo para outras esferas. Há quem diga que Mary Shelley tenha feito uma representação entre opressores e oprimidos. Nesse sentido, é impossível não pensar no mundo atual e o quanto a violência estaria relacionada com a falta de amor e acolhimento, com miséria e desigualdade.
“Devo eu ser considerado o único criminoso quando toda a humanidade pecou contra mim?”
E para não ficar só nas discussões maiores, até questões como o vegetarianismo podem ser consideradas, já que a criatura menciona só comer frutos e o tradutor nos oferece a informação que Mary e Percy Shelley eram vegetarianos e defendiam os direitos dos animais.
Enfim, todos esses pontos são levantados para reforçar a teoria do quanto uma obra clássica pode ser atual. E nesse caso, o imenso sucesso de tantas releituras, nos mais variados campos da arte, já dá a dimensão da importância da obra. Um simples conto de verão, com mais de 200 anos, que resiste ao tempo enquanto houver motivos para discuti-lo.
Para mais curiosidade, recomendo este vídeo super didático do TED- Ed, Everything you need to know to read “Frankenstein” – Iseult Gillespie.
Bárbara Mussili
Santiago do Chile, 20 de janeiro de 2018
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