“Quando Ponciá Vicêncio viu o arco-íris no céu, sentiu um calafrio.”
Quem de nós, quando criança, não se perguntou onde ficaria o começo e o fim do arco-íris? Ponciá Vicêncio traz essa dúvida um pouquinho modificada. Para ela, na verdade, está o mito bantu de passar por debaixo de uma “cobra celeste bebendo água”. Essa crença nos traz uma diferente visão daquela do pote de ouro. E esse calafrio sentido por ela nos indica um outro caminho. Quem nos leva por ele é Conceição Evaristo.

A começar pelo prefácio, a escritora nos oferece duas informações importantes. A primeira é que Ponciá, de alguma forma, existe nela mesma e, talvez por isso, sentimos na narração em terceira pessoa a voz inconfundível de Conceição como quem senta conosco em uma tarde para contar uma história.
A segunda informação nos chama atenção para o ato de resistência desde a publicação, com recursos da própria autora, da primeira edição do livro em 2003, dez anos após ter sido escrito, até a edição atual de 2017. A obra já foi vertida para o espanhol, inglês e francês.
Mas quem é Ponciá? É uma mulher negra, do interior, que nasceu em uma família que ainda vivia na roça por conta da herança da escravidão. Seu avô foi escravo e o pai nasceu livre por conta da Lei do Ventre Livre, porém, como sabemos, a letra da lei não reformou as consequências de um sistema imposto por quase quatrocentos anos. Sendo assim, a família vivia “livre” de um certificado de propriedade, mas “escrava” à uma condição social que impunha não somente a continuidade na roça do canavial e do engenho de açúcar para sobreviver à miséria, assim como também impunha o registro de um sobrenome, Vicêncio, herdado de seu proprietário.
“O tempo passava, a menina crescia e não se acostumava com o próprio nome. Continuava achando o nome vazio, distante… Ponciá Vicêncio sabia que o sobrenome dela tinha vindo desde antes do avô de seu avô, o homem que ela havia copiado de sua memória para o barro e que a mãe não gostava de encarar. O pai, a mãe, todos continuavam Vicêncio. Na assinatura dela a reminiscência do poderio do senhor, um tal Coronel Vicêncio. O tempo passou deixando a marca daqueles que se fizeram donos das terras e dos homens.”
Dessa forma, pode-se entender um pouco da origem de Ponciá, uma personagem construída a partir de uma forte necessidade por compreender sua identidade.
Nesta busca, a jovem resolve mudar o rumo de sua vida. Assim como para ela, observamos que esta também é a sina para muitos outros que vislumbram quebrar o elo que os prendem ao passado da escravidão. E aqui, mais uma vez, lembramos da travessia do arco-íris que, embora desencorajadora, é a única ilusão que resta àqueles que, com poucos recursos, resolvem tentar a vida em uma cidade maior.
Vale comentar que talentos adormecidos poderiam ter sido incentivados. Como no caso de Ponciá que aprendeu a ler e a escrever em condições inóspitas e que também tinha a habilidade artística de produzir peças em barro e argila. Porém, terminou se ocupando do serviço doméstico em casa de família, como herança de uma cultura escravocrata.
De forma não linear, a narrativa vai desenvolver esta trajetória, alternando os acontecimentos no passado e no presente, na roça e na cidade, da personagem menina e mulher. Não há divisão em capítulo, mas sim em pequenos recortes. Até a diagramação funciona de forma diferente, através do recurso de inversão de recuo entre a primeira linha do parágrafo e o corpo de texto, de maneira a tornar estes trechos mais curtos e intensos.
A escrita de Conceição Evaristo torna poética uma história entrecortada de passagens com fortes passagens dolorosas. Afinal, dentro de todo este contexto, a própria Ponciá, que se lança em busca de uma vida melhor, separada de suas origens naturais, alimentada da lembrança de sua infância e desconectada da presença dos seus afetos, tenta se reconhecer em um esforço descomunal.
“Ponciá sabia dessas histórias e de outras ainda, mas ouvia tudo, como se fosse pela primeira vez. Bebia os detalhes remendando cuidadosamente o tecido roto de um passado, como alguém que precisasse recuperar a primeira veste, para nunca mais se sentir desamparadamente nu.”
Todos os personagens simbolizam de alguma forma as consequências de um processo social muito arraigado. Mesmo assim, a autora é bem sucedida ao conectar os personagens como a mãe de Ponciá, Maria Vicência, o irmão Luandi, o amigo soldado Nestor e Nêngua Kainda e até mesmo o companheiro de Ponciá, para que cada um à sua maneira formem esta conexão, esta “herança” histórica e demonstrem que o afeto pode reconstruir os danos sofridos.
Ponciá Vicêncio é uma ficção que recria o ambiente e as sequelas do que seria algo em torno da segunda geração posterior à Lei do Ventre Livre (1871). Nos dias atuais, podemos considerar que já avançamos algumas gerações. Ainda assim, é possível que as Ponciás reais ainda transmitam esta memória que implica em uma reafirmação de identidade, superação de preconceitos e reinvindicação de direitos frente à uma dívida histórica que se reflete em graves desequilíbrios sociais.
A literatura de Conceição Evaristo nos revela didaticamente todas estas mazelas. Mas, para verdadeiramente eliminá-las, é preciso que se abram possibilidades para que tantos outros escritores negres possam viabilizar outras publicações e possamos, finalmente, reconhecer, de alguma forma nossa ancestralidade africana e uma identidade coletiva.
“O humano não tem força para abreviar nada e quando insiste colhe o fruto verde, antes de madurar. Tudo tem o seu tempo certo. Não vê a semente? A gente semeia e é preciso esquecer a vida guardada debaixo da terra, até que um dia, no momento exato, independente do querer de quem espalhou a semente, ela arrebenta a terra desabrochando o viver. Nada melhor que o fruto maduro, colhido e comido no tempo exato, certo.”
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