“Não nos lembramos das primeiras imagens e feitos da vida: do leite do peito, das grades dos berços, do móbile que se mexe sozinho magicamente…”
Maria Lucrécia Eunice Facciolla ou simplesmente Eunice Paiva. É possível que você ainda não a conheça. Seu marido e seu filho são mais conhecidos pelos que acompanham a história recente do Brasil ou a literatura. No entanto, em Ainda estou aqui, ela assume o protagonismo.

O filho de Eunice é Marcelo Rubens Paiva, escritor, jornalista, roteirista e dramaturgo. Feliz ano velho o projetou para a literatura contemporânea brasileira quando foi reconhecido com o Prêmio Jabuti 1983. Lançado em 1982, tem como acontecimento central o acidente que deixou Marcelo tetraplégico aos 22 anos. Ainda estou aqui é seu décimo terceiro livro, lançado em 2015.

O marido de Eunice é Rubens Beyrodt Paiva, engenheiro e político brasileiro. Eleito deputado federal em 1962 pelo Partido Trabalhista Brasileiro (PTB). Cassado pelo golpe militar de 1964. Preso, torturado e morto nas dependências do Destacamento de Operações de Informações (DOI) do Exército Brasileiro, no Rio de Janeiro, segundo comprovação da Comissão Nacional da Verdade (CNV).

O livro está classificado no gênero de autobiografia e memórias. Sendo assim, diz muito sobre Marcelo e também sobre seu pai, Rubens Paiva, mas tem muito mais a dizer sobre a mãe, Eunice. Nesse sentido, não parece exatamente uma autobiografia, mas uma biografia, um reconhecimento justo e digno. Por essa razão, também pode ser visto como uma maneira de passar a limpo a relação entre mãe e filho.
Ainda estou aqui é visceral. Profundamente tocante. Marcelo tem o tom certo para tocar em duas temáticas absolutamente difíceis. A do pai, no contexto da ditadura e do seu desaparecimento e morte, e a da mãe, na luta diante da viuvez precoce, da injustiça e da Doença de Alzheimer. Acredito que esse tom venha do seu aprofundamento. Sua postura é emotiva sim, em alguns momentos, até porque, ao escrever o livro, Marcelo tinha acabado de ser pai. Percebe-se claramente o quanto estudou as questões históricas e políticas ocorridas no Brasil assim como pesquisou a enfermidade que acometeu sua mãe e os mistérios da memória. Como filho e como escritor.
Pode-se dizer que Eunice era uma mulher despreocupada até o marido desaparecer. Foi nascida e criada como as mulheres de sua geração para ser esposa e mãe. Teve com Rubens cinco filhos: Vera, Eliana, Ana Lúcia, Marcelo e Maria Beatriz. Formou-se em Letras, era extremamente culta, leitora dos autores mais reconhecidos intelectualmente. Como se formasse uma bagagem que seria usada não muito tempo depois.

Rubens Paiva foi eleito deputado federal em 1962 e cassado em 1964 por conta do golpe militar. Exilado, foi para a Iugoslávia e França. Retornou ao Brasil e foi viver com a família no Rio de Janeiro. Marcelo tinha onze anos quando o CISA – Centro de Informações de Segurança da Aeronáutica – ocupou sua casa e levou seu pai para o DOI em 20 de janeiro de 1971. Logo depois, o CIE – Centro de Informações do Exército – levou sua mãe e uma de suas irmãs para o mesmo lugar. Eliana foi solta no dia seguinte. Eunice ficou doze dias presa. Rubens foi torturado até morrer no dia seguinte. Seu corpo nunca foi encontrado, mas seu caso foi denunciado pelo Ministério Público Federal (MPF) e sua morte investigada e comprovada, nestas circunstâncias, pela CNV em 2014. Quarenta e três anos depois de seu desaparecimento.
Marcelo voltou no tempo e montou um quebra-cabeças. Fez a sua própria comissão da verdade porque, não somente era uma criança, mas, a maioria das pessoas na época não tinha ideia do que estava acontecendo com os desaparecidos políticos. Dois meses depois de seu pai ser levado, sua família posava para a Manchete, uma espécie de “Caras” da época, um retrato literal da fantasia surreal na qual vivia a sociedade.
“Nunca me esqueço da primeira foto que fizeram depois do desaparecimento do meu pai. Era março de 1971. Era para a revista Manchete, símbolo do Brasil grande, a revista das celebridades e notícias felizes.”

Mesmo com pouca informação, Eunice já tinha noção do que acontecia, mas talvez não quisesse ver ou já desejava esquecer. Rubens Paiva não participava da luta armada, mas sua índole não lhe permitia ficar alheio, ajudava a proteger os perseguidos políticos, transitava informações. Ele sabia, por exemplo, do sequestro do embaixador suíço Giovanni Bucher e da exigência de troca por setenta presos políticos que depois foram exilados no Chile e cuja carta de um deles resultou na sua prisão.
Como as lembranças na nossa mente, a narração não é linear. O presente e o passado se misturam assim como as memórias recente e de longo prazo de Eunice. Assim se constrói sua trajetória. Se formou em Direito aos 42 anos, já viúva e com cinco filhos. Transitou do papel secundário ao protagonismo como provedora da família, advogada, ativista de direitos humanos, militante pela anistia, especialista em direito indígena. Em paralelo a tudo isso, a busca de justiça sem querer dar o braço a torcer. Uma mulher que se fez forte porque nem tinha outra opção. Não tinha tempo para os pequenos detalhes da vida em família, nem para afetos, porque algo muito maior a consumia. Conquistou seu espaço e independência financeira.
Embora Rubens Paiva tenha sido uma vítima atroz da ditadura política pela qual passamos, o que se quer mostrar é que a luta desta mulher, seja a pessoal quanto a profissional, fez de Eunice a improvável, porém, legítima representante da resistência.
E ela resistiu o quanto pode. Eunice foi diagnosticada com a Doença de Alzheimer. Este momento de sua vida motivou o filho escritor a recontar a história. Marcelo, em alguns trechos, escreve no passado como se a mãe não estivesse mais aqui. Relembrar sua história é saber que ela ainda está, mesmo que sem lucidez. Não mais somente no dolorido, mas redentor resgate do filho. Mas também na convivência com o neto que despertou Marcelo para a paternidade.
Duas relações me chamaram a atenção e me comoveram em especial. Uma diz respeito ao Alzheimer com profundos traumas psicológicos. É preciso esclarecer que ainda não se conhece a causa dessa doença. Sendo assim, essa relação é puramente uma observação, mas, se fosse possível colocar-se no lugar de Eunice, acredito que teríamos ideia da dimensão do seu pesadelo que conhecemos pelos livros e depoimentos sobre a barbárie e a covardia dos hediondos crimes de tortura. Depois de tantos anos, ainda resta uma ferida não cicatrizada.
A outra relação é a visão do autor sob um outro ângulo. O filho que se torna pai. Não somente do seu próprio filho, mas também da sua própria mãe. A diferença é que, por alguma razão, ele prefere dizer que se tornou mãe.
O jogo tinha se invertido naquele instante. Em 30 de janeiro de 2008, naquela tarde abafada, na forma da lei no Foro Central Cível na praça João Mendes, s/no, 4o andar, sala 426 do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo, primeiro provisoriamente e depois definitivamente, aquela que cuidou de mim por 48 anos seria cuidada por mim. O referido é verdade e dou fé. Eu virava mãe da minha mãe.
Talvez, Ainda estou aqui tenha sido escrito para afirmar que a doença de Eunice não desconstrói o que ela fez e quem ela é. Não apaga sua história. Assim como também ainda a de Rubens ainda não terminou.
bárbara mussili
Santiago de Chile, 19 de junho de 2016
Eunice Paiva nos deixou em 13 de dezembro de 2018.
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