A ocupação

“Todo homem é a ruína de um homem, eu poderia ter pensado.”

por pelo menos cinco vezes, contei o uso da palavra ruína como metáfora nas primeiras páginas de A ocupação. me perguntei por que o escritor Julián Fuks repetia a comparação da ruína com seres humanos já que o espaço principal, cenário desta auto ficção, era o abandonado Hotel Cambridge. mas precisei percorrer um pouco mais a leitura para compreender que tanto ocupação quanto ruína seriam usadas por Fuks na construção da narrativa com sentidos mais amplos.

é claro que cada leitor faz sua própria trajetória como receptor de um texto, a depender de suas próprias experiências prévias. minha primeira leitura do autor foi em 2017 quando li A resistência, uma espécie de primeira auto ficção, na qual Fuks conta como seus pais e seu irmão pequeno se exilaram no Brasil por causa da ditadura argentina. Fuks nasceu no Brasil, porém sua ligação com este passado de militância dos pais e as circunstâncias do nascimento do irmão deixaram marcas na sua própria história pessoal.

Julián Fuks (Foto de divulgação)

em 2020, também tive a oportunidade de assistir um debate pelo projeto CineAdUFRJ, coordenado pela Professora e Doutora em Linguística Sabrina Lopes e convidados, no qual o tema girava em torno ao direito à cidade. um dos filmes debatidos foi justamente Era o Hotel Cambridge (2016), dirigido por Eliane Caffé. então, essas eram minhas referências prévias ao livro e que geraram minhas expectativas. A ocupação foi publicado em 2019.

o livro possui pequenos capítulos, narrados em primeira pessoa pelo mesmo Sebastián, alter ego de Fuks desde A resistência, alternando momentos e diálogos que fluem através do discurso indireto livre deste narrador.

o primeiro espaço é o hospital. Sebastián vive o delicado momento de acompanhar o pai hospitalizado: deparar-se com a impotência diante da enfermidade e da dor.

ao mesmo tempo, enquanto o filho assiste o pai, Sebastián e a companheira admitem a probabilidade da gestação, algo nunca antes cogitado em dez anos de convívio e, por isso, uma possibilidade que contribui para mais momentos de muita sensibilidade. o segundo espaço, então, é a casa.

Nestas duas histórias paralelas, ainda que exista um personagem representativo, ainda que o leitor compreenda a sutileza de cada situação, percebe-se uma certa nuance de emoções contidas. Talvez por serem momentos tão íntimos.

já o terceiro espaço é o hotel. Janati, um refugiado sírio, em situação irregular, havia feito contato com Sebastían porque desejava relatar sua história. O espaço de Janati era e ainda é um país em ruínas, a Síria, que vive uma guerra civil há dez anos entre o governo autoritário e os grupos de oposição, já tendo tomado proporções internacionais.

no entanto, a cada visita ao Hotel Cambridge, Sebastián conhece mais e mais histórias: Preta, Sandra, Antônio, Brito, Rosa, entre eles outros refugiados como o peruano Demetrio e a haitiana Ginia. até conhecer Carmen, a líder da Frente de Luta por Moradia (FLM), a mulher que conduzia o movimento ocupado por quase 150 famílias em um edifício fechado há mais de dez anos e perceber que o sentido de coletividade da ocupação tinha uma mentora.

Carmen conversa com policial durante ocupação do prédio abandonado do INSS, no Centro (Foto: Jardiel Carvalho)

a discussão pleiteada por estes movimentos organizados, causada por um déficit entre pessoas sem moradia e as centenas de construções abandonadas na cidade de São Paulo, é posta pelo autor de forma literária, porém, real através das situações experimentadas por ele nesta comunidade em que cada um assume seu papel de responsabilidade no grupo.

as discussões são pautadas desde o controle da portaria, passando por problema com o encanamento até os mandados de prisão e de reintegração de posse que já estavam expedidos na ocasião em que Sebastián se dava conta da realidade em reuniões acaloradas.

Refugiados em país próprio ou estrangeiro, porque é isso o que a gente é, não importa a terra onde a gente esteja. – Carmen Silva

em alguns momentos, para além do drama coletivo e de sua exposição pessoal, parece que Julián assume de vez o lugar de Sebastián para denunciar a insanidade que toma conta do país. nos faz lembrar essa democracia frágil que se desintegra a olhos vistos e acentua cada vez mais a penúria desoladora que é a desigualdade social. a questão da moradia, assim como o exílio de refugiados, são chagas expostas do mundo global.

e neste projeto de escritura em que teve a tutoria do escritor moçambicano e português Mia Couto, Julián Fuks escreve uma carta para Couto e reforça o papel da “literatura ocupada” e passa, mais uma vez, a sensação de impotência que nos atinge. mas acredito que Fuks deve saber o quanto esta literatura ocupada é importante para nós, leitores.

A literatura, era essa quimera, poderia restituir algo da humanidade que perdemos.

assim, acho que entendo o porquê destas histórias todas juntas e intercaladas. pessoais e coletivas. é como se todos nós precisássemos perceber as trajetórias se cruzando. cada ato de resistência, como ocupação e como direito no mundo desigual, é parte de uma luta histórica.

É assim, a gente sabe: quem não luta, está morto. – Carmen Silva

bárbara mussili

Rio de Janeiro, 15 de março de 2021

Obs.: enquanto escrevia para Couto, Preta Ferreira e seu irmão Sidney Ferreira estavam presos por acusações pelas quais não se comprovou culpabilidade e depois de 109 dias conseguiram HC para responder em liberdade.

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