As meninas

“Sentei na cama.”

Três jovens amigas universitárias que vivem no pensionato católico Nossa Senhora de Fátima em São Paulo e estudam na maior universidade pública do Brasil, a USP. Através delas, um retrato do país, em 1969, sob o ponto de vista feminino. Com toda a problemática que as cerca em um ambiente reprimido e sombrio. Juntas, suas histórias formam uma mistura explosiva.

As Meninas é um livro corajoso de Lygia Fagundes Telles. Foi publicado em 1973, no auge da ditadura militar e aborda temas extremamente delicados na época e que ainda o são atualmente. No ano seguinte, a obra ganhou o Prêmio Jabuti na categoria romance, prêmio literário mais importante no Brasil e ainda os prêmios Coelho Neto da Academia Brasileira de Letras e Ficção da Associação Paulista de Críticos de Arte.

Lygia é uma das maiores escritoras da literatura brasileira contemporânea. Ocupa a cadeira dezesseis da Academia Brasileira de Letras desde 1987. Em 2005, foi agraciada com o Prêmio Camões, maior distinção da língua portuguesa, pelo conjunto de sua obra. Sua leitura é importante não somente por todos estes reconhecimentos, mas também porque neste ano de 2016, a União Brasileira de Escritores (UBE) enviou sua indicação ao Prêmio Nobel de Literatura para a Academia Sueca.

Já era hora então de conhecer Lygia. Optei por começar com as meninas. Li a sinopse, achei interessante a temática das jovens universitárias em plena ditadura. Não que o tema seja leve, ao contrário, achei pertinente. Voltei ao começo do livro umas cinco vezes. Difícil. Quase incompreensível. Mas só uma coisa a dizer: valeu a pena. Portanto, o meu conselho é que você não desista ao começar.

Imagine a mente de uma mulher aos vinte anos. Imagine os pensamentos em estado de alerta. Mais ou menos como quando se tenta fazer meditação, mas vem tudo na sua cabeça: sua fome, sua saudade, sua preocupação, o fim de semana, as obrigações etc. Agora imagine os pensamentos de três mulheres juntas. Misturadas. Ao mesmo tempo. E mudando o tempo todo de assunto. Pronto. Está formada a liga desse livro.

A autora se utiliza de uma técnica literária chamada fluxo de consciência que se traduz por contar a história através do processo de pensamento do personagem. Só que nesse caso, não se trata de um único personagem e sim de três. Ou seja, as três meninas narram a história e a elas se soma um narrador em terceira pessoa. A dificuldade é identificar quem está narrando e perceber quando o foco da narração muda e para quem. Só isso. Não raro na mesma frase.

Mas esse não é um desafio impossível porque, a partir do momento que os personagens são construídos e as características se apresentam, a compreensão se torna mais fácil. Mas vamos aos fatos.

O ano é 1969 e sabe-se disso pela menção ao sequestro do embaixador americano Charles Elbrick. Como o golpe militar ocorreu em 1964, quando se instalou a ditadura militar, a essa altura, já estávamos na transição do segundo para o terceiro presidente deste governo. Nesse período, o Ato Institucional no 5 já havia sido instaurado, suspendendo direitos e garantias constitucionais. A repressão se acentuava e o regime era conhecido como “linha dura”. As perseguições políticas se intensificaram e, consequentemente, as prisões, as torturas e os desaparecimentos daqueles que eram contrários ao regime imposto.

Cabe lembrar que o livro foi publicado em 1973, no olho do furacão, depois de três anos de produção. A censura imperava, logo, há de se reconhecer a extrema coragem da escritora que tocou em uma ferida aberta e, inclusive, descreveu no livro, uma sessão de tortura que, por se julgar os fatos que ocorreram, não foi uma denúncia em forma de ficção. A autora realmente recebeu um panfleto com esta descrição.

“Quero que ouça o trecho do depoimento de um botânico perante a Justiça, ele ousou distribuir panfletos numa fábrica. Foi preso e levado à caserna policial, ouça aqui o que ele diz, não vou ler tudo: ali interrogaram-me durante vinte e cinco horas enquanto gritavam, Traidor da Pátria! Nada me foi dado para comer ou beber durante esse tempo. Carregaram-me em seguida para a chamada capela: a câmara de torturas. Iniciou-se ali um cerimonial frequentemente repetido e que durava três a seis horas cada sessão. Primeiro me perguntaram se eu pertencia a algum grupo político. Neguei. Enrolaram então alguns fios em redor dos meus dedos, iniciando-se a tortura elétrica: deram-me choques inicialmente fracos que foram se tornando cada vez mais fortes. Depois, obrigaram-me a tirar a roupa, fiquei nu e desprotegido. Primeiro me bateram com as mãos e em seguida com cassetetes, principalmente nas mãos. Molharam-me todo, para que os choques elétricos tivessem mais efeito. Pensei que fosse então morrer.”

O trecho sobre a tortura continua. Lygia foi a primeira a descrever algo assim em um livro. Na edição de relançamento em 2009, ela acrescenta após caserna policial: DOI-CODI. Ou seja, acrescenta a abreviatura do Destacamento de Operações de Informação – Centro de Operações de Defesa Interna, locais de tortura identificados pela Comissão Nacional da Verdade, nos Estados do Rio de Janeiro, Minas Gerais, São Paulo e Pernambuco.

Na ficção, as três amigas são Lorena Vaz Leme, Lia de Melo Schultz e Ana Clara Conceição. Cada uma tem uma perspectiva do que está acontecendo e isso acontece em função da história de vida delas.

Lorena é a burguesa. Estuda Direito e é de uma família rica. Com seu oriehnid (dinheiro ao contrário para não dar azar) financia as amigas. Seu quarto na pensão reflete seu pequeno mundo cor-de-rosa e é o reduto onde se passa a maior parte da história. É romântica, sonhadora e apaixonada por um médico casado, M.N., por quem espera todo o livro. Vive um conflito emocional por causa de uma tragédia familiar e também em função do relacionamento com a mãe. Através dela se discute a virgindade, a alienação. É a narradora que mais predomina e seus pensamentos são bem elaborados, inteligentes dentro de sua concepção de vida.

Lia é a guerrilheira. Estuda Ciências Sociais, filha de uma baiana com um alemão ex-nazista. É engajada no movimento revolucionário dos estudantes contra o regime. Escreve um livro que dedica a Che Guevara e anda com O Capital enrolado em papel de pão. Seu namorado Miguel, líder estudantil, está preso e ela se envolve com a negociação da sua libertação pelo embaixador americano sequestrado para que eles possam ir para a Argélia. Através dela se discute o sistema, o sexo livre. Seus pensamentos são mais estruturados e politizados.

Ana Clara é a drogada. Trancou o curso de psicologia. A mãe, prostituta. O pai, desconhecido. Representa o padrão de beleza, é a mais liberada e acredita que vai se dar bem. Se envolve com o traficante Max e engravida. Através dela se discute o consumo de drogas, o abuso sexual, aborto, racismo. É a narradora mais difícil de entender, já que está sempre em uma viagem. Por isso também é chamada de Ana turva ou Ana deprimida.

A caracterização dos personagens, suas histórias e dramas não são entregues de bandeja por Lygia. É preciso estar bem atento porque quando menos se espera, dos pensamentos difusos vem as revelações e o quebra-cabeça vai montando.

Somado ao universo das amigas e ao contexto, vem a convivência com as freiras que por vezes parecem alheias aos fatos e por outras, buscam alternativas para se aproximar. As questões relacionadas à liberação feminina, como o divórcio, a opção sexual, a masturbação e a igualdade de gênero; o choque de realidades e o preconceito também são abordados.

Na análise final do livro, considera-se que a história se passa em um tempo cronológico de apenas dois dias quando, na verdade, parece muito mais longo. Talvez esse tempo justifique a velocidade da narrativa.

Definitivamente o nome e a nova capa de relançamento da obra em 2009, ilustrada pela artista plástica Beatriz Milhazes, sugerem ser um livro ameno. Ledo engano. Este é um livro denso, dolorido. os pensamentos desconexos não são somente uma técnica, uma linguagem. É a maneira encontrada pela autora para nos transportar para o momento que as meninas vivem e para a essência de cada uma. No final, há a angústia de entender essa amizade ou se o um turbilhão de emoções e sentimentos as atropelou.

Santiago de Chile, 26 de abril de 2016

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