Anarquistas, graças a Deus

“Num casarão antigo, situado na alameda Santos número 8, nasci, cresci e passei parte da minha adolescência.”

Toda família deveria ter uma menina como Zélia. É esse o pensamento que fica com a leitura de Anarquistas, Graças a Deus que faz uma viagem no tempo para conhecermos a família dela, de origem italiana, e que fincou pés em São Paulo para formar parte da nossa gente.

Em 1976, aos sessenta anos, Zélia Gattai Amado, casada com o já então consagrado autor Jorge Amado com quem viveu por 56 anos, se refugiou na casa do Rio Vermelho na Bahia para que ele se dedicasse à escritura de Tieta do Agreste. Enquanto isso, ela escreveu um conto sobre uma lembrança da infância. O marido leu o original e a aconselhou a escrever suas memórias até a adolescência. Foi assim que uma nova escritora surgiu.

Durante três anos, Zélia se dedicou ao projeto desse livro e reviveu a menina atrevida que foi, caçula de uma família de cinco filhos (Remo, Wanda, Vera, Tito e ela própria), para contar suas lembranças com absoluta sutileza. Em 1979, aos 63 anos, a militante política e fotógrafa Zélia lançou sua obra de estreia na literatura justificando seu reconhecimento também como memorialista, como preferia ser chamada.

Anarquistas, Graças a Deus poderia ser a história de muitos brasileiros. A imigração italiana no Brasil foi bastante intensa entre o final do século XIX e o começo do século XX e estima-se que entre 10% e 20% dos brasileiros tenham alguma descendência italiana. Naqueles tempos, tanto os italianos buscavam oportunidades na América quanto o Brasil buscava mão-de-obra e incentivava a imigração. Então, muitos deles vieram pra cá em busca de oportunidades.

Além da razão econômica, também havia a questão política. O anarquismo, cujo termo vem do grego anarkia e significa “ausência de poder”, foi um movimento que começou com o francês Pierre-Joseph Proudhon, autor da célebre frase “A propriedade é um furto”, usada pela autora para dar nome a um dos 139 pequenos capítulos do livro e explica o porquê de seu pai não querer comprar a casa alugada e que foi onde a família viveu sua história.

Os pais da autora caracterizam cada um desses aspectos. A família de Ernesto Gattai veio para o Brasil no navio Città di Roma, em 1890, fundar a Colônia Cecília, uma comunidade anarquista no Brasil. Angelina Da Col e sua família também vieram de navio desde Gênova, em 1894, trabalhar nas lavouras de café em São Paulo. A história dos dois toma forma na mente da criança por volta de 1910 quando eles, já casados e com a família crescendo, alugam o casarão na Alameda Santos número 8, a “vizinha pobre” da Avenida Paulista.

Ali, Zélia vê o pai buscar o sustento da família através da atitude empreendedora no ramo da mecânica conciliando com sua paixão pelos automóveis. Vê sua mãe dedicar-se à família com incrível força interior, a alma dividida entre a casa e as tarefas intelectuais, compaixão pelas pessoas, amor pelos animais e pelas plantas. Vê também uma família de sangue italiano correndo nas veias, mas que, através dos filhos, dos amigos, começa lentamente a passar por uma “transfusão” de sangue brasileiro.

Por todo o tempo, questões relacionadas ao ambiente cultural e social aparecem nas entrelinhas e compõem uma deliciosa maneira de se entender os costumes. Muitas passagens ilustram isso, como por exemplo quando Angelina escolhe um nome para o filho e Ernesto volta do cartório com o filho registrado com outro nome por causa do amigo que lhe diz que o inicialmente escolhido não era forte, nome de maschio… já o nome de Zélia foi dado por Maria Negra, a pajem da casa. Seu Ernesto não mudou seu nome, mas mudou sua data de nascimento para não pagar multa no cartório já que havia demorado para fazer o registro. E assim as histórias iam se criando para serem contadas.

Para os mais nostálgicos, Zélia vai lembrar da ida ao cinema mudo para a soirée das moças, ao circo armado no terreno baldio e que tinha uma banda que carregava a criançada pela rua, ao Parque Antártica com roda gigante, carrossel e algodão-doce. Vai lembrar do anúncio do Biotônico Fontoura no bonde e dos sonhos que Dona Angelina teimava em decifrar e que serviam de inspiração para as jogatinas.

Lembra também as histórias dos animais de estimação da família. Flox, o cão de Zélia, o cabritinho Bito que nunca virou almoço e sim passou a viver dentro de casa, o gatinho Ministro, o único ser que ela considerava livre na casa.

As incursões pelo guarda-roupa da mãe quando ela saía, hábito das meninas, fez a menina folhear os primeiros livros anarquistas, um exemplar italiano da Divina Comédia, de Dante Alighieri e Os Miseráveis de Victor Hugo, que ela, sem saber ler ainda, admirava as gravuras.

Cada momento revelado tem seu encanto, mas recomendo ao leitor deter-se principalmente no trecho que vai de “Seu Ernesto conta uma história” até “Parecida, mas diferente” pois é exatamente nele que o pai e o Nono Eugênio contam, respectivamente, a mudança das famílias Gattai e Da Col para o Brasil. Particularmente, uma das narrativas mais emocionantes e curiosas também. O músico brasileiro Carlos Gomes e o Imperador Pedro II entram nessa história.

Além da vida cotidiana, também é mencionada a participação política dos pais com direito à filharada muitas vezes presente e isso refletia na liberdade como eles eram criados ainda que as meninas fossem mais preservadas.

Como toda família, altos e baixos acontecem e os negócios de Seu Ernesto são afetados pela Revolta Paulista de 1924 e depois pela crise econômica que altera o sistema de economia agroexportadora que tinha como base o café. Foi afetado também pelo momento vivido no Estado Novo e perseguições aos que não pensassem de acordo com a ideologia da ocasião. Mesmo nos momentos mais tensos, se faz presente um estado de espírito neutro da autora, sem influenciar o entendimento do contexto.

A leitura se remete à nostalgia, até para quem não viveu naqueles tempos. A forma encontrada de organizar seus fragmentos de lembranças, em pequenos capítulos, faz com que nos sintamos à vontade e nos desperte a curiosidade de ter vivido ali. São situações simples, mas cheias de significados para entender a identidade da autora e de sua família.

Zélia Gattai deve ter pensado e repensado cada detalhe da obra, mas para o leitor, fica a sensação de que nos sentamos em uma sala para ouvir uma pessoa a contar histórias. Ela conseguiu tratar dos temas mais amenos aos mais profundos com suavidade. E a prova disso é que ela brinca até no nome escolhido para sua obra.

Se toda família tivesse uma Zélia, seria possível que futuras gerações soubessem não só quem veio de onde, mas também conhecer fatos de suas próprias famílias que não teriam se perdido. E entender que o passado ainda não vai tão longe.

“Aqueles que estudam o passado acabam se deparando com duas conclusões contraditórias. A primeira é que o passado era muito diferente do presente. A segunda é que ele era muito parecido.” – Keith Thomas (historiador inglês) citado no posfácio de Lilia Moritz Schwarcz (historiadora e antropóloga brasileira) na obra de Zélia Gattai.

Santiago de Chile, 13 de fevereiro de 2016

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