“Desde hace un par de siglos, los humanos hemos empezado a cuestionarnos por qué las sociedades diferenciaban de tal modo a hombres y mujeres en cuanto a jerarquía y a funciones”
Histórias de Mulheres nasceu em duas etapas. A primeira foi quando a autora Rosa Montero começou a publicar pequenas biografias no suplemento semanal do jornal espanhol El País. Depois, a ideia cresceu e se transformou neste livro que foi publicado em 1995.

O que logo chama a atenção é a introdução de Rosa da série de dezesseis histórias. Nela, se observa uma preocupação que é esclarecer por que é importante contá-las. A autora começa estabelecendo um contexto que não é desconhecido, mas que ainda é necessário comentar: vivemos em uma cultura em que nós, desde sempre, fomos acostumadas a um papel que a sociedade nos reservou. Muito se conquistou, no entanto, muitas mulheres, antes que nascêssemos, trataram de subverter estas regras.
Não obstante, este livro não é sobre heroínas. Ainda que seja fundamental que se traga à luz histórias de mulheres, porque muito se conta sobre os homens, estas não são mulheres perfeitas. E isso é importante destacar já que aqui não se trata de expor modelos ou de reverenciar personalidades, senão ao contrário. O que Rosa quer é nos aproximar de mulheres que viveram a seu tempo a vida que lhes coube. Assim, é melhor que esteja bem claro que não vamos colocá-las em um altar, o que nos tira um peso enorme de comparações, julgamentos ou que esperemos que sejam santas ou perfeitas para que sejam admiradas.
“No he seleccionado a las biografiadas para que representen la situación de la mujer en las diversas etapas de la historia, ni para que haya un adecuado aparto de culturas y países, y ni tan siquiera porque sean las más famosas. A decir verdad, más que escoger yo a las protagonistas ellas me han escogido a mí: voy a hablar de aquellas mujeres que en algún momento me hablaron.”
Outro tema a destacar é a narrativa de Rosa. Eu já tinha conhecido sua escrita em A louca da casa quando constatei sua maneira inteligente de conduzir o leitor por um caminho que não se detém até que se termine. Daqui já se tem uma ideia, mas Histórias de Mulheres é ainda mais atrativo. A autora encanta com sua maneira de contar as histórias, pela quantidade de detalhes curiosos, além de tudo que é fundamental para que se entenda a vida de cada uma. Tanto a introdução quanto cada história é seguida de uma bibliografia que nos permite saber onde buscar no caso de que se deseje aprofundar ainda mais.
“Creo que al leer las vidas de los demás estamos intentando aprender de ellos: los personajes biografiados son exploradores que van de descubierta por esa tierra incógnita que es la existencia.”
E como já foi mencionado, a autora não escolheu as mulheres com base em questões históricas ou de representatividade ou o que quer que seja. Estas foram simplesmente as que lhe falaram. Tampouco houve um critério para ordená-las, mas me parece que aqui, somente com o objetivo de encontrar uma forma de relacioná-las e ter um fio condutor, devo colocá-las em ordem cronológica de nascimento e servir um aperitivo para incentivar a leitura.
Rosa foi buscar a história da grega Irene de Constantinopla no ano 752. Irene disputou o trono de Império Romano do Oriente com seu próprio filho em uma época em que somente os homens tinham acesso a esse tipo de poder. Nesta disputa, cometeu um ato atroz: mandou cegá-lo para se manter. O mais incrível é que depois a Igreja ortodoxa a transformou em Santa Irene e este é um dos exemplos do que se comentava antes, de que não se trata de apontar mulheres virtuosas. No entanto, esta história terrível não deve passar em branco. Ainda mais que, passado muito tempo depois desta era obscura, mas não isolada, em 1759, nasceu a inglesa Mary Wallstonecraft que fundou as bases do feminismo em plena Revolução Francesa, o marco de um novo tempo, a Idade Contemporânea, mas que também trouxe um período de terror desviando-se dos ideais de liberdade, fraternidade e igualdade para todos (não somente para os homens). Esta mulher conseguiu se estabelecer como escritora ainda que ao custo de se afastar da luta ideológica. Morreu ao dar a luz a Mary Shelley, a famosa autora de Frankenstein.


Mudando de século, se apresenta uma nova geração. A começar pela francesa Aurore que para se tornar escritora adotou o nome masculino George Sand, não somente como pseudônimo mas também na vida. Era uma maneira de ser aceita e seu tema era a liberdade. Este direito foi e, ao mesmo tempo, não foi suprimido das irmãs Brontë: Charlotte (1816-1855), Emily (1818-1848) e Anne (1820-1849). Isso porque as jovens viviam isoladas e, mesmo com todas as restrições familiares que o pai impunha, elas tiveram acesso aos livros e se transformaram em escritoras fenomenais ainda que tenham morrido muito cedo.


Um pouco antes de George morrer em 1876, nascia na França, em 1864, Camille Claudel; na Inglaterra, em 1873, Lady Ottoline Morrell; na Espanha, em 1874, María Lejárraga. Camille foi escultora autodidata e quis o destino que conhecesse o famoso escultor Auguste Rodin que foi seu amante e sua sombra. Ottoline foi uma aristocrata que podia ter se contentado com este status quo, mas foi mecenas de vários intelectuais que ela acolhia em sua casa. María, ensaísta, feminista, socialista e deputada era esposa de um famoso dramaturgo espanhol cujas obras, comprovadamente, foram escritas por ela.



Depois que Camille, Ottoline e María nasceram, também veio ao mundo a suíça Isabelle Eberhardt, em 1877, mas morreu antes que eclodissem as grandes guerras mundiais, ainda muito jovem. Isabelle foi uma pessoa rara porque, em sua breve vida, escrevia sob um pseudônimo masculino e foi para África onde se converteu ao islamismo. A austríaca Alma Mahler nasceu dois anos depois de Isabelle, mas viveu muito mais. Alma tinha alma de artista, era música, mas abandonou suas aspirações em seu primeiro relacionamento. Além disso, teve outros polêmicos affairs e se posicionou a favor da ideologia nazista e antissemita. Em seguida, em 1887, nasceu a espanhola Zenobia Camprubí que lançou mão de uma promissora carreira profissional como escritora para dedicar sua vida ao seu companheiro, o espanhol Juan Jamón Jimenez, ganhador do Prêmio Nobel de Literatura de 1956. A última a nascer neste século foi a escritora britânica Agatha Christie, em 1890, e adentrou ao século XX alcançando êxitos que a levaram a recordes de vendas, no entanto, a vida de Agatha parece ter saído de um romance policial da escritora.
E, finalmente, entramos no século XX, com a americana Laura Ridding, poeta e crítica literária, que nasceu em 1901 e que Rosa Montero considera a mais malvada ou simplesmente uma bruxa, no sentido de que era manipuladora e violenta. Sua contemporânea, a antropóloga americana Margaret Mead, nasceu no mesmo ano, mas não sob a mesma influência astral e foi considerada uma das grandes mulheres do século XX, principalmente porque deduziu que o comportamento, em razão do sexo, não era natural e sim cultural.


A mexicana Frida Kahlo veio ao mundo em 1907, um pouco antes da Revolução Mexicana. Já se sabe muito sobre Frida e mais ainda se quer e se necessita saber sobre ela. Não é por acaso que as minhas resenhas de Frida, a biografia de Hayden Herrera e O diário de Frida Khalo são as mais visualizadas no blog, além do que, a biografia foi uma das bibliografias de Rosa Montero e a recomendo fortemente. No entanto, a perspectiva da autora, fazendo um paralelo entre as doenças de Frida e o tempo que ela se viu presa a uma cama e o quanto isso não a impediu de se estabelecer como artista, personalidade e esposa do famoso muralista Diego Rivera, é diferente e muito eficiente para compreender a coragem dessa mulher.

No ano seguinte, na França, nascia Simone de Beauvoir para romper as barreiras através do seu pensamento e também de seu comportamento. O primeiro, tão reconhecido como ícone do movimento feminista e o segundo, tão difícil de compreender, principalmente pela maneira como estabeleceu seu relacionamento com Sartre. Mas isso demandaria muito mais para ler e ter uma opinião (não um juízo de valor). E por fim, a última mulher é a espanhola Hildegart Rodríguez que nasceu em 1914 e viveu somente dezoito anos porque esta também é a história de sua mãe Aurora, obcecada por educar sua filha na mais rigorosa disciplina de educação para que ela se tornasse uma mártir salvadora do mundo. Assim como Irene de Constantinopla, Aurora foi capaz de atentar contra a vida de sua filha e a matou.

Como se pode observar, este livro também podia se chamar de histórias fortes. Pelas prévias, se percebe que não há final feliz pelo menos como se espera em determinadas ficções. Aqui é o real que comanda a vida. No entanto, há muito o que pensar em termos de avanços e de abertura que a vida e as atitudes destas mulheres puderam estabelecer para nós que as lemos hoje.
As dezesseis mulheres não esgotam todas as histórias. São apresentados muitos outros exemplos que nos dão vontade de ler mais e mais. O objetivo não é somente a curiosidade. A verdade é que há um eco, um espírito de permanência entre nós já que, de qualquer maneira, ainda temos os desafios próprios de nossa época para superar a desigualdade que existe ao redor, seja na vida pessoal ou profissional.
Para mim, me chamam atenção especificamente as histórias de Mary Wollstonecraft, as irmãs Brontë, María Lejárraga, Frida Khalo e Simone de Beauvoir. Seja por suas histórias, por seu legado ou por seus olhares. Essa é a experiência de ler esse livro: uma narrativa perfeita de Rosa Montero que nos motiva a buscar mais.
Santiago, 4 de julho de 2017