“A história de Frida Kahlo começa e termina no mesmo lugar.”
A imagem pop de Frida está muito longe da ideia de um “era uma vez”. A história dessa mulher é sofrimento e superação. Dor e poesia. Sua biografia mostra isso. Da menina à artista. E ajuda a entender como sua popularidade é muito pouco perto do seu legado e de sua vida.

Antes de tornar-se essa lenda, Magdalena Carmen Frida Kahlo y Calderón não era o que se podia entender como padrão de beleza. A sobrancelha fechada como uma gaivota, o buço marcado, a perna fina em função da poliomielite, as sequelas de um trágico acidente. Seu comportamento também não era o esperado. Se vestia como homem, provocava as pessoas, era autêntica. Definitivamente não era aceita. Ainda hoje, muitos torceriam o nariz para pessoas como ela. Imagine no início do século XX, em uma pequena cidade chamada Coyoacán nos arredores da Cidade do México.

“Mas Frida era um pássaro ferido e, por causa disso, era diferente das outras crianças, e quase sempre estava sozinha”
Quem nos conta Frida: a Biografia é a historiadora de arte Hayden Herrera, uma americana especializada em Arte Latino-Americana. Ela utilizou como insumos o diário e arquivos pessoais de Frida; cartas, entrevistas e relatos variados; artigos, revistas e livros especializados em arte; informações quanto a aspectos históricos e socioculturais. Além, obviamente, do conhecimento técnico e da habilidade em organizar todo esse material.

O livro é dividido em seis partes que poderiam ser assim resumidas: a infância; o acidente e Diego; a vida de casada e as experiências fora do México; a volta para o México, Trotsky, a afirmação como artista e sua obra dentro do surrealismo; sua volta com Diego e o reconhecimento público; o epílogo da sua vida. Ainda possui uma parte ilustrada com fotografias e reproduções de algumas obras citadas ao longo da leitura que ajudam a acompanhar as explicações da autora.
Hayden, enquanto especialista, entrega uma biografia que tanto pode atender aos leitores ávidos por conhecer tão somente a história de vida como também aos que desejam entender melhor a sua arte. Acredito que esse é um ponto muito positivo da obra. A verdade é que seria difícil dissociar a vida de Frida da sua produção porque sua arte refletia a vida e vice-versa.
Frida teve uma curta e intensa vida. A autora mostra sua infância na Casa Azul, hoje um museu em sua memória, em uma família patriarcal, mas de maioria feminina e com uma visível preferência do pai por ela. Talvez pelo fato de não ter tido filhos homens, o alemão Guillermo Kahlo escolheu a filha de personalidade mais forte para investir em sua educação e possivelmente formá-la médica. Ou também porque era claramente muito interessada, curiosa e demonstrava uma grande facilidade no aprendizado. Mas o atrevimento e a sagacidade de Frida não lhe deram vida fácil.

“Frida é a mais inteligente das minhas filhas. Ela é a que mais se parece comigo” – Guillermo Kahlo
Aos seis anos, contraiu poliomielite que deixou sequelas graves e para sempre fragilizou seu estado de saúde além de impedi-la de ser mãe. Aos dezoito anos, sofreu o brutal acidente que mudou seu rumo. Para quem acredita que a adversidade pode trazer transformações, a história dela pode ser uma prova. Conta-se que no bonde que estava, alguém carregava um saco de ouro em pó que se rompeu e Frida, além de todos os ferimentos e do sangue que jorrava, ficou coberta desse ouro. Para quem observa em sua obra, o surrealismo, a força das suas emoções, o choque dos seus sentimentos, é incrível imaginar essa cena real e não fazer relação com a sua arte. É literalmente surreal.
Esse é o momento em que a aspirante a médica, limitada fisicamente, é trazida a desenvolver seus dons artísticos. Como só podia ficar em uma posição devido a coluna estraçalhada, ela começou a pintar os seus famosos autorretratos olhando para um espelho fixado no teto.
Como uma pessoa extremamente emocional, suas pinturas refletiam suas dores e alegrias já que, ao contrário do seu corpo, sua mente sempre esteve em total atividade. A autora vai abordar a primeira paixão, Alejandro Gómez Arias, a quem Frida escrevia cartas de amor com o sofrimento típico da adolescência agravado pela sua situação em que se encontrava.

Mas essa intensidade no amor não ficou para trás. Frida conhece o muralista Diego Rivera, quase vinte anos mais velho, e lhe apresenta suas pinturas. Casaram-se em 1929. Ela tinha 22 anos. Assim começa o relacionamento que durou por toda a vida, ainda que resistindo a várias separações, traições de ambas as partes, inclusive da parte dela com outras mulheres e com o russo Leon Trostky, líder dos bolcheviques que derrubaram o governo russo em 1917 e que foi exilado no México em 1937. Além de um período de casamento aberto.

Pra entender a força dessa relação, é preciso observar que quando Frida se casou, ela foi e queria simplesmente ser a mulher de Diego, foi um papel assumido por ela conscientemente. Até sua produção artística foi reduzida. Frida não tinha muita segurança e não se considerava técnica, tanto que o termo usado para designar sua obra era naïf que significa que seu autor não tem formação acadêmica.
“Eu a recomendo a você, não como marido, mas como entusiasta admirador de sua obra, dura como aço e delicada e fina como as asas de uma borboleta, adorável como um belo sorriso, e profunda e cruel como a amargura da vida.” – Diego Rivera em uma carta de recomendação sobre Frida
Ao longo do livro, será mais fácil entender como Frida Kahlo virou simplesmente Frida e não mais a mulher do famoso muralista Diego. Sua projeção artística, seu ativismo dentro do comunismo, seu posicionamento político de esquerda e o feminismo também contribuíram na formação da sua identidade.
O contexto histórico da existência de Frida Kahlo é a Revolução Mexicana, um conflito armado para acabar com o período de 30 anos de ditadura de Porfírio Díaz no governo do México que, mesmo após sua derrubada, se estendeu com lideranças divididas como Francisco Madero, Emiliano Zapata e Pancho Villa até depois da promulgação da Constituição Mexicana em 1917 e que vigora até hoje. Depois da revolução, o México vivia um período de transformações, houve espaço para reformas agrárias e nacionalização de indústrias petrolíferas e elétricas, mas também houve para políticas contrárias ao idealizado no período revolucionário.
“… A rigor, conforme atesta sua certidão de nascimento, Frida nasceu em 6 de julho de 1907. Talvez optando por uma verdade mais estrita do que o fato permitiria, ela escolheu nascer em 1910, ano da eclosão da Revolução Mexicana. Uma vez que era filha da década revolucionária, quando as ruas da cidade do México estavam coalhadas de caos e derramamento de sangue, Frida decidiu que ela e o México moderno haviam nascido no mesmo ano…”
Seu forte senso de nacionalismo está presente na imagem que ela construiu de si mesma. No começo suas longas saias simplesmente escondiam sua perna defeituosa, mas ao longo do tempo virou sua marca registrada. Tanto na sua forma de vestir quanto em seus autorretratos, a Frida que reconhecemos, sempre está colorida, com os cabelos trançados, adornados, com as peças típicas nativas.
“Para Frida, os elementos do vestuário eram uma espécie de paleta, da qual ela selecionava a cada dia as imagens de si mesma que queria apresentar ao mundo”
O tema central da obra de Frida é ela mesma em um contexto absolutamente mexicano e latino. Seus autorretratos ou os cenários poderiam ser como reproduções do seu estado de espírito e de como enxergava sua vida. Algumas vezes livre, outras vezes inquieto, muitas vezes perturbador.
Das que conheci através do livro, a que mais me emociona é a “Árvore da Esperança”, uma pintura que reflete o dia e a noite em uma terra partida e desértica. Na parte clara, a maca e uma Frida imóvel enrolada a um lençol e com a ferida na coluna aberta. Na parte noturna, a bela Frida na sua posição mais altiva, maquiada, com um adereço no cabelo e adornada com brinco e colar, em um lindo traje típico vermelho, segurando seu colete com dignidade e uma bandeira com o seguinte escrito: “árbol de la esperanza mantente firme” (árvore da esperança mantenha-se firme).

“É uma paciente singular de uma cirurgia, anestesiada em uma maca de hospital e vigiada pela parte de seu ser que foi fortalecida pela esperança e pela vontade”
Uma biografia sobre Frida mostra que ela não é uma lenda. Ela é um ser humano a quem rotular seria de todas as formas superficial, que viveu com suficiente intensidade e coragem para, a despeito de julgamentos, superar sofrimentos, expor sentimentos e encorajar pessoas. Além da figura única, fica um imenso respeito pela sua contribuição para a cultura mexicana e latino-americana.
“Nada vale mais do que uma risada. É sinal de força gargalhar e se abandonar, ser leve. A tragédia é a coisa mais ridícula”
Seu trabalho rendeu três exposições em vida: uma em Nova York, uma no México e outra em Paris. O Museu do Louvre comprou sua obra intitulada em inglês “The Frame” que foi a primeira obra de um artista mexicano do século XX a ser adquirida pelo museu.
Certamente que é uma contradição consumir Frida na sua superficialidade, pelo fetiche que ela representa. Mas se é que em alguns casos os fins justificam os meios, o fato de que a sua figura chame a atenção para conhecer sua história, seu contexto e sua arte, já terá valido a pena.
“a mim não era permitido realizar os desejos que todo mundo considera normais, e pra mim nada pareceu mais normal do que pintar o que não havia sido realizado… minhas pinturas são… a mais franca expressão de mim mesma, sem levar em consideração julgamento ou preconceitos de quem quer que seja. Pintei pouco, sem o menor desejo de glória ou ambição, mas com convicção de que, antes de qualquer outra coisa, eu queria me dar prazer e, depois, de que eu quero ser capaz de ganhar a vida com minha arte… muitas vidas não seriam suficientes para pintar da forma como eu desejaria e tudo aquilo de que eu gostaria.” – Frida Kahlo
Santiago de Chile, 16 de abril de 2016
Quer saber mais:
Acesse aqui o link para a página oficial da Fundação Frida Kahlo e Museu Frida Kahlo.
Dica de Filme: Frida com Salma Hayek, dirigido por Julie Taymor e roteirizado por Hayden Herrera, Clancy Sigal e Diane Lake. Sinopse: Uma biografia da artista Frida Kahlo, quem canalizou a dor de uma lesão paralisante e seu matrimônio tempestuoso em seu trabalho. Veja o trailer.
