“Soy Inés Suarez, vecina de la leal ciudad de Santiago de la Nueva Extremadura, en el Reino de Chile, en el año 1580 de Nuestro Señor.”
Em 1540, o espanhol Pedro de Valdivia saiu de Cuzco, no Peru, e atravessou a cordilheira e o deserto para fundar Santiago, no Chile, em 1541. Mas ele não estava sozinho. Além de todo o séquito que o acompanhava, estava uma mulher a quem Valdivia chamava Inés da minha alma. Assim, a chilena Isabel Allende encontrou o título para este romance histórico, publicado em 2006.


Para entender o viés da obra, uma curiosidade que observei porque vivi em Santiago desde 2015 e gosto de percorrer os lugares que abordam a história e a cultura do país. Quem visita o Museu Histórico Nacional, por exemplo, nota que, para tratar o período da conquista espanhola, o retrato de Valdivia se destaca em uma sala. Já o de Inés de Suarez, está em um corredor de passagem para outro espaço, em segundo plano.

O sutil detalhe pode explicar por que Isabel Allende deu voz a essa mulher. A autora pesquisou durante quatro anos e criou uma narrativa em que Inés, pouco antes de morrer, resolve contar sua versão para a filha adotiva, Isabel. Trata-se de memórias, afetadas pela idade, pela emoção e, de uma certa maneira, pela paixão que viveu.
Ao narrar em primeira pessoa como Inés, Allende imprime seu estilo inconfundível de narrativa. O tom é de intimidade e despedida pois, afinal, a prosa é reveladora ao contar a história de um grande amor e de uma grande decepção. É envolvente, na medida em que nos perdemos no jogo de palavras. Também é místico, ao criar uma aura de acontecimentos fantásticos. Os personagens, ainda que reais, são idealizados, muitas vezes heróicos ou simplesmente especiais. Esse conjunto de características me lembrou muito a narrativa de A casa dos espíritos (1982), outra obra da escritora, desenvolvida dentro de uma mesma temática ambientada no Chile.
Para além desta questão do gênero e do estilo, parece que Isabel Allende assumiu a tarefa de mostrar o papel de Inés de Suaréz em um evento importante da história chilena. E, para compreender melhor esse ponto, é preciso contar um pouquinho sobre a personagem.
Inés nasceu em Plasencia, na Espanha, no ano de 1507, logo depois que espanhóis e portugueses encontraram o Novo Mundo. Cresceu em uma família humilde, junto ao avô, a mãe e a irmã. Se apaixonou e se casou com Juan de Málaga pagando o dote com seu próprio trabalho de costureira e cozinheira. No entanto, o marido partiu para a América em busca do Eldorado e ela ficou sendo mais uma das mulheres conhecidas como “viúva das Índias”. Depois de algum tempo, Inés pediu autorização para tomar o mesmo rumo. De Sevilha, chegou em Cuzco onde teve a confirmação de sua viuvez. E aí, segundo a narrativa, começou a viver. De suas empanadas, costuras e da abnegação por cuidar dos doentes.
Foi quando se apaixonou novamente e encontrou o amor ao lado de Pedro de Valdivia, que também havia deixado uma “viúva” na Espanha. Mesmo assim os dois mantiveram relações amorosas acobertadas convenientemente. Quando Valdivia decidiu empreender a conquista do território chileno, Inés ficou conhecida como a primeira mulher espanhola a participar da expedição.
A narrativa está organizada em seis capítulos que correspondem aos períodos históricos que começam na Europa em 1500, passando pela fundação da cidade de Santiago de La Nueva Extremadura nas proximidades no Cerro Huélen (atual Cerro Santa Lucía) e terminam na Batalha de Tucapel em 1553, com a morte de Valdivia.
Inés da minha alma apresenta duas questões que merecem ser consideradas e que estão conectadas. A primeira delas refere-se à perspectiva feminina. De fato, a versão, ainda que ficcional, apela para que sua importância seja reconhecida, a despeito das inúmeras situações retratadas em que sua condição como mulher a colocaram em desvantagem. Neste ponto, também há uma certa contradição porque, em alguns momentos, Inés enfrenta estas imposições. Em outros, aceita. Principalmente, quando influenciada por sua extrema religiosidade.
A segunda questão é que, sendo Inés espanhola e estando à frente do objetivo de conquista do território, este romance histórico também está sendo contado a partir de uma perspectiva colonizadora. É possível perceber que, à medida que Inés rompe barreiras e se impõe, assume um novo lugar. Desta vez, do ponto de vista da divisão social, ela passa a ser considerada em um papel dominador em comparação aos seus serventes, em um âmbito familiar ou, em relação aos indígenas, em um aspecto mais abrangente.
Inés foi uma mulher de seu tempo. É como dizemos quando queremos justificar ações que segundo o pensamento atual seriam injustificáveis. O que se convencionou chamar descobrimento ou conquista são conceitos revistos e passam a percepção de que, ainda que reconheçamos a importância de uma mulher, a história da América passa pela dominação de um povo que originalmente ocupava o território, sejam incas ou Mapuche. As guerras travadas foram sangrentas e, inúmeras vezes, os que seriam considerados civilizados desmereceram a cultura local ao impor poder e fé religiosa.
Então, é importante entender que a versão fictícia de Inés é a da conquistadora espanhola. Ainda que se tente relatar fatos e demonstrar imparcialidade, não deixará de ser sua ótica. Para contrapor, é interessante pensar no que seria uma versão dos Mapuche, os habitantes originários destas terras que se destacaram por possuírem uma forte identidade cultural. Imagino a construção de uma versão de Lautaro, o menino Mapuche capturado para servir a Valdivia e que posteriormente se tornou um líder de seu povo em uma reviravolta digna dos melhores romances. Mais uma vez, também se trataria de uma ficção, porém, a literatura sempre retroalimenta a história.
Voltando ao Museu e para finalizar, posso contar outras duas curiosidades. Na escada para o andar superior, encontra-se uma enorme tela: a pintura a óleo de Pedro Lira (1888) chamada La Fundación de Santiago. Na representação, Valdivia encontra-se no alto do Cerro Huelén, ponto turístico atualmente conhecido como Cerro Santa Lucía, mas, segundo a página de informação histórica digital, Memória Chilena (Biblioteca Nacional de Chile), o assentamento não aconteceu exatamente neste lugar e sim no vale do rio Mapocho onde se verificou ser uma área mais cultivável. Isso demonstra que a arte toma da licença poética para representar a vida, seja na pintura, seja na literatura como vemos em Inés da minha alma.
A segunda curiosidade é que houve um estudo preliminar desta tela e nesta, a figura que aparece de monge, está de frente para o fundador. A artista Marcela Danoso e o investigador Alexis López Tapia apontam que teria um rosto de mulher. Adivinhem quem seria? Sim, Inés de Suaréz. A pergunta que cabe é: por que no estudo definitivo, esta figura foi colocada em outro plano e seu rosto praticamente ocultado, como mostra a comparação.

A resposta pode reafirmar o que, a meu ver, é o maior mérito da obra de Isabel Allende: representa Inés, ainda que tão distanciado no tempo, para que ela pudesse, literariamente, relatar sua posição na história e despedir-se da filha.
Santiago de Chile, 14 de setembro de 2018
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