“Mas, vocês podem dizer, nós pedimos para você falar sobre mulheres e ficção – o que isso tem a ver com um teto todo seu?”
Em 1928, Virginia Woolf foi convidada a proferir palestras para moças que estudavam em instituições vinculadas à Universidade de Cambridge. O tema era mulheres e ficção. Woolf já tinha publicado obras como O quarto de Jacob (1922) e Mrs. Dalloway (1925) e seu reconhecimento já era notório. Mas desconfio que a plateia presente não tinha a exata noção de estar vivendo um momento histórico.

O ensaio era longo e acabou sendo publicado no ano seguinte sob o título original Women and Fiction e, posteriormente, como A Room of One’s Own. Minha primeira leitura da obra foi da versão em português, Um teto todo seu, da Editora Tordesilhas em fevereiro/2018, publicada em 2014. A segunda aconteceu em dezembro/2018, depois que me apaixonei pela edição em espanhol, Un cuarto propio, da Penguim Random House pelo selo Lumen, publicada em 2013.
Fato é que este texto se converteu em uma referência literária de abordagem feminista na sua essência. Temas como patriarcado, desigualdade, subalternidade e educação estão presentes no ensaio. Logo de início, Woolf expõe o ponto fundamental da discussão.
“Tudo o que eu poderia fazer seria dar-lhes a minha opinião sob um ponto de vista mais singelo: uma mulher precisa ter dinheiro e um teto todo seu, um espaço próprio, se quiser escrever ficção; e isso, como vocês verão, deixa sem solução o grande problema da verdadeira natureza da mulher e da verdadeira natureza da ficção.”
Assim, ela prefere elaborar uma ficção literária através de uma personagem que, dias antes da palestra, reflete sobre uma série de experiências quanto ao papel coadjuvante da mulher na produção literária e os motivos que colaboram para esta situação.
A personagem Mary (de sobrenome Beton ou Seton ou Carmichael, a critério do leitor) se encontra em Oxbridge (termo que mescla a Universidade de Oxford e a de Cambridge), perdida em seu pensamento, comparado pela autora a um peixe miúdo que ainda é preciso engordar. Ao caminhar pelo gramado, ela é convidada a tomar seu lugar no cascalho porque, como mulher, não deveria andar por ali. Ao tentar entrar na biblioteca, também é convidada a se retirar por não estar acompanhada por outro estudante ou por não possuir uma carta de apresentação. Estas situações interrompem o processo de reflexão e indicam os lugares permitidos às mulheres. no ensaio da edição em português, a crítica literária Noemi Jaffe também chama atenção para a visão de um gato sem rabo que passeia pelo campus e relaciona com a figura, rara e inesperada, da mulher que escreve.
No decorrer de todas estas situações, há lugar também para sutis intervenções sobre a escrita e contexto histórico da sociedade. Então, as alunas não se deparam somente com as colocações mais críticas da autora. Podem observar e identificar passagens que, aparentemente, passariam despercebidas e que, na verdade, são lições do processo criativo da autora.
Mary descreve as ocupações tipicamente femininas na época, como ler para senhoras ou alfabetizar crianças. Revela também o recebimento de uma herança para exemplificar o quanto essa renda, provavelmente uma das poucas formas na qual uma mulher poderia desfrutar de uma vida financeira mais confortável, trazendo uma certa tranquilidade de futuro.
Remonta ainda a um passado em que as mulheres eram totalmente submissas aos homens ao ponto de terem reconhecido seu direito de agredi-las e cita o quanto estes escreveram romances cujas protagonistas eram mulheres nesta condição de submissão, como Anna Karênina e Emma Bovary. muito antes disso, quando as mulheres já casavam cedo e tinham muitos filhos, tampouco aprendiam a escrever, consequentemente, não podiam fazer poesia.
Surge também a ideia de que William Shakespeare poderia ter tido uma irmã tão talentosa quanto ele, a quem Woolf chama de Judith. O que lhe teria ocorrido? Teria estudado gramática e lógica? Teria sido obrigada a casar? Teria podido escrever? Ou teria enlouquecido?
A partir da metade do ensaio, o raciocínio migra do expositivo para o conclusivo. É quando a narrativa aponta que a atividade intelectual entre as mulheres começou a se intensificar quando elas passaram a ser remuneradas por sua produção, ainda que com que inúmeros percalços. São agregadas também referências ao universo da literatura inglesa como Jane Austen, George Sand, Emily e Charlotte Brontë.
“Aqui, então, Mary Breton para de falar. Ela contou a vocês como chegou à conclusão – à prosaica conclusão – de que é necessário ter quinhentas libras por ano e um aposento com tranca na porta para escrever ficção ou poesia.”
Definitivamente, a narrativa foge do convencional e exige algum nível de abstração para captar as entrelinhas. Logo, esta não seria exatamente uma leitura simples, porém, como não é um livro muito grande, a imersão traz fluidez na compreensão. A edição escolhida também ajuda neste processo. A versão em português traz um posfácio da crítica literária Noemi Jaffe. Já a versão em espanhol, tem tradução do escritor argentino Jorge Luis Borges e prólogo de Kirmen Uribe. Também se destaca por ser uma edição em capa dura com sobrecapa e caderno costurado, além de lindas ilustrações de Becca Stadtlander.
A importância do espaço próprio e da independência remete a um ponto principal que Virginia Woolf destaca ao final: o fato de que a liberdade intelectual está condicionada à vida material. No caso das mulheres, esta questão é ainda mais incisiva a considerar que este espaço não teria somente a conotação do lugar físico. Também seria o caso de conquistar lugares em espaços mais amplos, como nas universidades, no mercado de trabalho e na política. na literatura, por exemplo, das quarenta cadeiras, apenas três são ocupadas por mulheres. Dos 114 prêmios Nobel de Literatura, dezesseis são do sexo feminino. Por outro lado, segundo a Pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, realizada em 2016, as mulheres leem mais que os homens e essa é uma tendência que vem crescendo.
“Mais ainda, daqui a cem anos, pensei ao chegar à soleira da minha porta, as mulheres não mais serão o sexo protegido. É lógico que elas farão parte de todas as atividades e dos esforços que um dia lhes foram negados.”
Se trouxermos estas questões para a atualidade, podemos perceber que a previsão de Woolf, tanto na literatura quanto em outras áreas, ainda é um desafio. Embora as mulheres tenham ocupado mais espaços no mercado de trabalho, elas ainda são afetadas pela desigualdade salarial, seja em função da maternidade ou simplesmente por questões culturais e, principalmente, sob a perspectiva da interseccionalidade que aborda as grandes diferenças entre mulheres brancas, negras, indígenas, lésbicas, transexuais, de distintas classes sociais etc.
A baixa representatividade política também influencia na elaboração de políticas públicas que possam reduzir estas diferenças. A literatura tem um papel importante na conscientização destes problemas e reivindicação de direitos. É justamente por isso que Um teto todo seu continua sendo atual.
Santiago do Chile, 20 de dezembro de 2018
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