Sejamos todos feministas

“Okloma era um dos meus melhores amigos de infância.”

Um pequeno grande livro. Sessenta e quatro páginas e um recado: sejamos todos feministas. Sim, isso mesmo todOs no masculino. Não é todAs. Enfim, tirando minhas próprias conclusões, o recado poderia ser: sejamos todEs feministas. Não importa o gênero.

Em 2012, a autora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie deu esse recado em uma palestra na conferência anual do TEDxEuston. O TED (Tecnologia, Entretenimento e Design) é uma organização sem fins lucrativos que tem como missão a disseminação de ideias inovadoras e que merecem ser compartilhadas através de fóruns globais. Nesse formato, chamado talk, os autores dessas ideias têm cerca de vinte minutos para explicá-las de forma simples como uma semente ao vento que se espalhará e dará bons frutos. Já o TEDx é uma variação desse fórum maior, compreendendo uma comunidade específica. O TEDxEuston, organizado pelos colaboradores do Reino Unido, abrange temáticas inseridas no contexto da África entre Nigéria, Gana, Alemanha, Estados Unidos e Índia.

Foto: divulgação

O que isso significa é que essa pauta, a igualdade de gênero, é muito importante. A página oficial do TEDx tem até o momento 7,9 milhões de visualizações. Posterior ao talk, surgiu a ideia do livro para dar uma forcinha na mensagem de forma que ela pudesse chegar a um maior número de pessoas. E o fato é que, no Brasil, por exemplo, o e-book pode ser baixado gratuitamente tanto na página da Companhia das Letras quanto na Amazon.

Chimamanda começa contando que um amigo a chamou de “feminista” quando ainda eram adolescentes e ele, provavelmente também não sabia o que era, porque o usou de forma pejorativa, como se fosse um xingamento. A verdade é que muitas pessoas também não procuram fazer o que ela fez quando chegou em casa: procurar no dicionário.

Feminista: uma pessoa que acredita na igualdade social, política e econômica entre os sexos.”

Com essa simples atitude, ela entendeu desde cedo que o rótulo de feminista é cercado de estereótipos que terminam por distorcer o seu real significado.

Seja no vídeo de trinta minutos ou nas 24 páginas do livro, a escritora não usa termos específicos, não menciona citações, não recomenda autores, não expõe conceitos, não discute o movimento como história ou seu rumo atual. Ela simplesmente explica como agimos em nosso cotidiano ou como passamos por determinadas situações em função do gênero, ou seja, pelo simples fato de ser homem ou mulher. São dados exemplos na vida pessoal e profissional. Como no caso em que ela não foi escolhida monitora de turma, no caso em que parecia invisível a um garçom, no caso em que não foi bem vista em um hotel ou restaurante por estar desacompanhada de um homem.

E ainda que não se admita um desequilíbrio de tratamento nas situações mais triviais, fato é que o mercado de trabalho ainda é um dos maiores reflexos da desigualdade através da simples comparação de salários. Chimamanda aproveita para argumentar como a liderança, por exemplo, atributo tão almejado na vida profissional, independe do gênero.

“Quando mais perto do topo chegamos, menos mulheres encontramos.”
Wangari Maathai – Prêmio Nobel da Paz 2004 (Quênia)

Outro aspecto fundamental diz respeito à maneira como se educa as crianças. Há uma predisposição de que elas assimilem comportamento em função de seu gênero biológico e não dos seus talentos. Nesse sentido, sofre o menino e sofre a menina. Ele não pode expor sentimentos. Ela deve esperar o casamento. E por aí vai, tanto que a autora também publicou um livro onde aprofunda a questão sob a ótica da educação: Para educar as crianças feministas – Um manifesto.

Chimamanda sabe que o terreno é árido, no entanto, sua experiência de vida, sua formação e sua literatura (lida ou escrita por ela) já a habilita a ser ouvida, seja por nós que já nos consideramos feministas no sentido literal da palavra e irrestrito ou por aqueles que possuem experiências e opiniões diferentes.

Sejamos todos feministas é um convite à observação e à reflexão. Não se trata de convencer a usar um rótulo. Não se trata do verbete. Mas sim se trata de que explicar seu uso porque, como Chimamanda brilhantemente adverte, estamos sim diante de uma questão de direitos humanos, mas não podemos negar sua particularidade. No mais, é desejar que a consciência e a luta finalmente garantam que nada nos defina.

“Que nada nos limite. Que nada nos sujeite. Que a liberdade seja a nossa própria substância.”
Simone de Beauvoir

Santiago do Chile, 8 de março de 2017

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